16, MAIO, 2019.
IMAGENS.
Eu vi aquele ruído sair da televisão e de alguma forma não fui alvejado, pelo semblante angustiante daquelas imagens. Um corpo havia caído do quarto andar, e fora filmado por um adolescente. Precisei poupar-me imaginar os traumas, pois são de fato automáticos, crepitantes.
A câmera não havia sequer tremido, era um foco milimetrado. Ele teve posse de um olhar cinematográfico quase perverso, pela situação hedionda; provavelmente buscaria fazer parte da arte, pois é um tipo de trauma.
Sentei e busquei um cigarro para aquecer a língua, apodrecer o gosto sadio do creme dental. A jornalista contava lentamente o caso, mas nunca quem caiu; imaginei ter sido um famoso. O suicídio não é um tema ordinário, os prédios ocupam almas que submetem-se a proximidades, mas nunca a morte.
Morte é um tema robusto, latejante e até improvável -talvez ninguém morra. E ainda que fosse cedo, havia na imagem um morto, o som seco das costelas comprimindo-se contra o piso, pulmão explodindo e as pernas lembrando molas de brinquedo; de fato, havia ali a morte.
Busquei o celular atoa, como todas as manhãs e me deparei com o descaso; não podia oferecer a desgraça daquela imagem a todos, não se faz isto, mas ignorar era cruel.
Escapei das curtas conversas imbecis e até me atrevi a considerar o que seria imbecil ou não; há um momento na existência vil, que o outro torna-se simples outro, e descobri isto tarde demais.
Meu cigarro acabou e peguei uma xícara de café, precisava do foco rápido e a ansiedade para imaginar coisas piores que aquela imagem, precisava continuar.
14, MAIO, 2020.
IDEALISMO.
a realidade ultra desejada do fim de um tipo de não-realidade, é curiosamente descartável na medida que: crio a partir de. este ‘de’ é o mundo-em-si, que não cabe as vagas interpretações ou tentativas de desvelamento; apagando o desvelar obrigatório, conhecer não seria tirar debaixo das cortinas e sim expor algo explícito e simplesmente encoberto pela consciência, como consciência de não-saber-ainda. descobrir não é desvelar. existe o não-mundo? a título de abstração sim, mas esta abstração só é possível através do eu-aqui, eu enquanto vivo e capaz de linguagem, as atitudes mequetrefes da linguagem não escapam a realidade, ainda que a torne maleável – é maleável a título de linguagem por exemplo – e este ato, um ludibriar, até onde o ludibriar só se faz de um eu diante de outro que necessariamente precisa se inserir neste ludibrio, nesta mentira, e a mentira está e é somente capaz de surgir no esboço de um não-mundo – que é o puro nada de uma possibilidade remota. então este não mundo não é real ainda que projetado no real, ele é um supor, um talvez, este talvez se revela? não, pois eu o criei para que esse outro se enganasse ou acreditasse em mim. minha atitude forjou uma possibilidade de não-mundo através do mundo, como isto seria capaz de criar-se fora daqui? para além daqui?
o além daqui também é submisso ao aqui (aqui como eu), e aí viria o ‘então o ser (eu) é tudo?’, ora como não? a natureza só pode ser tangida e alterada de forma drástica, pelo ato dum agente consciente de alteração, de não continuação instintiva; daí surge o corte ao naturalismo, aos aspectos animais da consciência, que nitidamente ultrapassam na medida que o mundo é um objeto e não a sua única forma. uma soberania que ainda nas entranhas e encruzilhadas inescapáveis do real, não devem tornar-se um labirinto; pois este é e virá e continuará a ser a única forma, o real não é alienável e destrutível, mas a partir de si, molda e remodela, mas nunca se altera de fato (fato como alteração que fizesse um passado por exemplo, deixar de ser ou um presente). a história é um fenômeno, o pensamento afeta-se pela história, pelo acontecimento da história no mundo.
15, MAIO, 2020.
RESPOSTAS.
hoje acordei com as pernas doendo, de um tipo de cansaço nefasto; traduzia comigo as palavras enquanto sentia as dores acontecendo, é terrível, terrível. minhas pernas estavam travadas, meus olhos tateavam o piso fétido, empoeirado e o amontoado de garrafas de cerveja barata, bagas de cigarro. que tipo de fase estive a viver? vou a ver quando levantar, mas agora não posso, minhas pernas não se mexem. não há ninguém ao meu lado, ninguém me espera lá fora, sei que fiz, sei que estive submerso numa questão; sem uma questão não me levantaria, não estaria aqui agora – onde ainda não sei -, e estando sei que a respondi. pois questões surgem no ápice de qualquer movimento e este ir não se espera, não é um isto a ser testemunhado e desta forma me contorço -sem mover as pernas.
não ouço ninguém quando tenho na raiz do ser a questão e esta é imperiosa ao meu ir, não espera nada além de si, e este é o meu chegar. agora um novo nascimento que não traz vida nova, é o corpo meu em outro estado, em um futuro recente, desta nova questão; lembro que jamais será respondida, é breve, é um instante, como estive no lamento das minhas pernas doídas, travadas e acolhido por alguma introspecção fajuta, introduzida pelas imagens destas cervejas e cigarros, em um quarto que agora reconheço ser o meu. e volto, relembro-me como o fantasma e o espectro feito navalha nos corpos que tiveram a me ver, conhecer.