O PRIMEIRO SUSTO./SÓ./SÓ.(ÚLTIMO)

19, MAIO, 2016.

O PRIMEIRO SUSTO.

Cancelar o primeiro passo, para que o segundo se evite e do primeiro parta prum atraso, dois para trás. Da destreza do planejamento, colocar o lamento e a capacidade dentro de um pote escuro, e brincar de ser ou não. A sagacidade do espontâneo se dissipa diante dos olhares agudos, que esperam um pulo, ou risada qualquer. Os dois próximos são ainda mais difíceis, enfrentar dois malignos tumores próprios, as vozes ecoantes nos corredores do espírito abandonado. A fadiga de um tímpano que sangra, pelo eco, do eco, de tudo que há ainda por vir. Cancelar a busca, antes de apertar o botão, explodir a própria cabeça, com uma marreta. Desmaiar antes do baque, o próprio ser não permite-se partir, quão fraco tornou-se!

Das vertentes imigrantes, visitam-no com cultura, mas os esmaga dentro do peito, cada batimento é uma alfinetada, dois antibióticos e senta. Vomita alguns que ficaram preso ali, o estômago começa a rejeitar e as primeiras pontadas, torna toda visita desgraça e o apêndice passa a arder, expande-se e explode!

As vergonhas alheias o tornam mascarado, despede-se da família, com um plano já bolado, por uma voz esmagadora. Alia-se as diversas causas de imposição prática-afirmativa, quando de pé diante da torcida de pequenas bactérias energúmenas, solta-lhe verbos e associa o próprio rancor para dispor e prever sociedade. Estas saltam e gritam, ecoam uma insolente desgraça esmagadora, que dá ao passado um presente belíssimo, com a morte do futuro!

O primeiro tiro deu-lhe um susto, mas o modelo deu-lhe arma! E busca o prata dela, dentro da gaveta e a saca, está girando e aponta, observa o peito congelar em resposta e o cérebro dando alfinetadas no gatilho, o dedo passa a escorregar a mão, o breu do quarto tapa a visão, precisa de tempo, não vai acostumar. A porta é chutada, e a mulher acorda, dá um, dois, três gritos e rouba sua atenção, sem a precisão psicopata, simplesmente atira e acerta a bala que atravessa a parede e faz o filho acordar. O visitante está de preto, golpeia-o e leva embora, alguns brinquedos, a televisão, lá fora o filho espera, não no quarto, mas no carro, preparado para zarpar!

O antibiótico foi injetado ali, está sentido-se bem, quer dizer, passa a desprezar o gatilho, o tiro. Descobre um pouco de pena em si, quando observa da janela, do décimo andar, algumas casas maltrapilhas, o esgoto que se espalha e de lá o grito das almas esquecidas, por um projeto simples de manutenção salarial. Volta num passado próximo e se vê descalço, de camiseta branca, erguendo os braços para aquele fantoche, que hoje some. O poder de ter, fez-o breve e o gatilho buscou a própria cabeça!

O crescer é linear, desgraça, o crescer é linear. Quer transfigurar um problema para a tua causa, preciso me defender, feito porta que se tranca, é ter um projétil preparado para assolar e destruir, por simples resposta a um quesito ancestral, do pavor ao próprio sangue. Dar razão à briga instintiva, assegurar-se dentro do social, alienar as cabeças de centenas de mulas acéfalas. Este agora senta, abre o caderno e escreve, mas as palavras lhe faltam, pois o rancor e o ódio conservou-se em sua alma, como no pai antes, no antes, e no antes. O conservador no ritmo agoniante, aquele que assiste o que há de vir já morto, para manter conservado, com validade eterna.

19, MAIO, 2019.

SÓ.

sinto-me só e destruído, exausto por passos inacabados e memórias titubeantes simplistas, masoquistas; vi de perto o corpo apaixonado de outrora tornar-se corrosivo e pré-histórico, como o semblante maldito traumático, ouvi-la gemendo por outros casos simbólicos e memórias diretamente egoístas que não eram d’seu’ego.

sorri ao espelho e fui alvejado por um atípico sentimento culposo, um verme minúsculo brotava entre as frestas dos dedos dos pés, mordiscando a pele com puxadelas risórias, porém arrepiantes. minha expressão se reduzia ao infante experimentando o breu quarto pela primeira vez, mas diferente deste não havia grito ou choro, só desespero.

meus dias tendem a iniciar como uma chacota divina, um poeta ou dramaturgo insatisfeito com seus desejos autônomos rubrica palavras, um rarefeito pesadelo dantesco, desabrochando na ponta dos dedos e língua-minha.

sinto-me só feito um tropego moribundo homem escalpelado, sentido a brisa mastigar o recém-corte e causar um tipo torpe de delírio; atinar a memória, sintetizar aquele indiscreto sentimento melancólico, onde as teses são espremidas por um instrumento de tortura pontiagudo atravessando imaginações nebulosas, fazendo de mim um eu-servo.

sou servo qualquer, multifacetado e composto por reflexos ordinários dos quaisquer que não eu; vou repudiar-me ao ponto de estar soterrado na decomposição lenta, sorrateira das malogradas falas e trechos poéticos, que nada serão, diferenciará em nada dos fúteis pútridos homens.

vou visitar palavras escritas no leito, revisitar a lápide e rir ao céus a factualidade simplista, dos vagarosos passos de todas as vidas; cuspirei nas literaturas protagonistas e os idealistas me atiçaram às chamas do inferno, donde nem lá me quererão, de novo arremessado a outra parte, que não tenha corpo ou instinto, que virá a ser só um leve e sinistro, sentimento de nada-nada -puro, físico, nada meu.

19, MAIO, 2020.

SÓ? (ÚLTIMO)

a opinião sobre as relações atuais é a mesma, é uma troca, relação de troca; como lidada na história da própria troca, da ácida forma: eu preciso até isto ser alcançado. e é a forma que nos habita hoje, nos transforma em egomanias ambulantes, de deploráveis atitudes que são um retorno ao: estava mal, desculpa. somos uma repetição incessante, uma inquietação contínua para dentro, sempre para dentro e isto nos torna insustentáveis ao mesmo modo que atrozes, pois daí tiramos e justifica-se a falta, a agressão, a falha; seria uma condenação? estaria aqui possível dizer que “fiz, mas não tive noção de”? quantas consciências vão continuar a existir antes do ato?

é uma época em que se escancara o isolado, isolante, mas já estávamos lá encaixotados, a premissa hoje é que há um desejo idêntico ao de antes: eu preciso disto até aqui. é sempre um alcançar de dentro pra fora e o fora é sempre um ausente ignorante, deletério que jamais me interpretará direito (como quero). exaustivo tentar juntar uns aos outros sem parecer desesperado, né? o carente! me poupem, é constituída de uma troca: eu ganho em você isto.

a vitória disto é a inquietude e o transtorno destes humanos buscando o ser só definitivo, o soberano de si diante da coisa (mundo), como qualquer soberania de si, provará-se insustentável, o mundo não deixa de existir na tua conquista; ele sustenta tua conquista, teu ir além dele que é completamente pífia.

estas egomanias são a evidência do ‘necessário’ diante das relações cotidianas, há sempre o obrigatório motivo de e não o dizer pois digo; injeta-se na alma a obrigação do necessário e este prova-se totalmente subjetivo, na medida da sua evidência mesmo; manter-se só é um delírio coletivo da ausência do fetiche alcançado, o ser só se torna simplesmente a base de uma estrutura; não uma conquista. o ser só atual é uma obrigação imposta e não uma vitória.

tu que está aí sentado e olha pros lados, pra tela e não vê ninguém, sente um alívio ou respira satisfeito, você está injetado disto; pois são escadarias para a primeira queda (e todos caímos), a primeira que é a necessidade, a percepção de que de fato: nesta troca de favores e alcances, você está só. (só)

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