SOBRE O NADA (2)

16, JULHO, 2022.

SOBRE O NADA (2)

 Veja-me, por favor, veja-me. Sou relapso, caído. Detesto repetir, mas cá volto ao teu colo áspero, amargo. Veja-me, tira daqui isto, rouba, rasga. Rompa as ligações dos músculos, arranca os membros; quero sentir o que é etéreo, se isto é só linguagem. Veja-me, olha para dentro do meu olho, há algo ainda por detrás desta carapaça minúscula? Rejeito meu corpo, rejeito o humano.

 Humano, sim, olha, humano! Existe inferno pior? Há correntes pregadas nos calcanhares, todo salto é um puxão; dói, quero soltá-los, flutuar. Preciso voar, preciso cair daquela escada de novo. Minha testa lambia o piso pontiagudo, abria-se, jorrava sangue. Lembra de mim? Estive lá contigo, lhe dei algo que sequer conhecia. Sou este nada, meu bem, nada atrás de nada, a perseverança é tua percepção.

 Humano é isto, humano? Quais raízes voltam-no? Eu não tenho sequer permanência, meu espírito devora todas as beiradas; escapando ao âmago. Meu âmago são vórtices, caos. Veja, por favor.

 Sou atravessado pela história, esta história. Sou atravessado pelo mundo, este mundo. Não há espaço-tempo na escrita minha, não quero representar o real; foda-se o real. Desculpa, meus dedos; teus dedos são aranhas. Olha-me, saia se quiser, fique se quiser.

 Humanos, não? Humano é isto. O verde dos meus olhos se quer dá-me vida, sequer diz algo. Inquieto, inquieto. Preguiça das premissas latejantes, pulsantes, organizadas. Preguiça destes futuros absurdos, ideais. O cinza atravessa a pele, contamina o sangue e lá fica; aos poucos confunde-se, pela forma prática de si, este cinza não me agride, faz feridas, machuca; este cinza simplesmente sou eu; eu sou o nada.

 Coveiros sistemáticos. Aleatórias mortalidades, razões? Quais razões justificam algo? Este estirado, alvejado pela bala perdida; aquele na distância saltou, saltou para onde? Será que de fato a vida esmaga tudo que há na morte? Olha-me nos olhos, por favor, eu não quero estar; não quero ficar.

 Sua pele é tão fria, rígida, tão crua, sincera; podia deitar ali, permanecer por um tipo de eternidade que surge nos lapsos dissociativos dos delírios raros; podia, juro, veja-me, tenho tanta linguagem para transformar teu ser na metafísica nascida do teu toque, mas volta, se quiser, volta.

 Lá, eu sou amedrontado; um machado habita minha mão direita, um machado. Os corpos pendem suas cabeças depois do golpe; não consigo arrancá-las. Preciso brincar com isto, né? Sentir a repetição desta dor, sentir que sou fajuto e mísero, prefiro deixa-los dando mordidelas na minha pele exposta; causando dor, agonia, pelo pavor que há na guilhotina; guilhotinar é enfim dar cabo, soltar. Meu machado não faz isso.

 Veja-me, veja; quer o erudito? Que o citar? Quer saber de onde surgem estes ambientes? O surreal contido na permanência, razões de. Para quê? Olha, vê.

 Desenhava olhos desde cedo, tudo precisava ser visto. Preciso saber o que há aí.

 Meu ser é nefasto, por dentro contaminado; caso seja químico, arranquem-me de mim. Se meu dito são figurações codificadas, arranquem minha cabeça.

 Lá fora, há vida lá fora. Há amor também.

 Mas eu sou o nada manifestado. Não há razão nos prognósticos que dou, sequer nas leitura que faço; sou simplesmente um abstrato dissociativo, submerso em amores metafísicos; pois há um corte nas demonstrações, um exagero simples no olhar do outro. Sou isto, enquanto corpo, sou isto; sou completo e perpétuo nada.

 A você, específico, peço desculpas.

2.

 Entenda, tudo bem? Você não vai ajudar.

3.

 Olha para trás, quem esteve lá? Olho para fora e me vejo, choro. Choro por estar lá, de novo.

4.

 Este corpo é um receptáculo divinizado dos invisíveis, como cada palavra é um traço alquímico, como a disparidade e caos, criam a partir de existir.

 Existir, meu bem, também é o nada.

5.

 Eu lhe amo, aos cumes desta substância. Pelo fascínio, pelo delírio. Tu jamais foras transeunte.

 Desculpa.

 Eu vou parar.

 Eu vou desistir.

 Mas desistir, de que?

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