26, NOVEMBRO, 2022.
DESFEITO.
Aos prantos ou aos movimentos que submergem a alma, à vontade específica. Diante disto, se é que há algo posterior ao ápice, aos cumes. Vislumbres na distância de alguns dias que aos poucos caminham nesta direção como um sentido; é esticar o dedo, puxar alguma corda, trazer para si isto e a razão continuar proliferando-se. Há fome aqui, há medo e alegria. Atentos ou incautos, assemelham-se nas propostas do tempo e remetem aos mesmos pontos de uma história; a tragédia de coexistir na contemporaneidade e repercutir, antagonizar e justificar-se. Ver dias compostos por semelhanças deploráveis, repetindo mesmos trajetos e causando mesmos acidentes. Senta-se na beira deste último degrau, assiste o próximo lugar nascendo entre manchas e rasgos na pele. Ouvir e olhar compondo sistemáticas resoluções sádicas; há naquele futuro, um corpo em decomposição.
A morte é inevitável, um progresso clássico e de consciências substituíveis. Existe a possibilidade de dizer e expor, enquanto átimos respiráveis, átimos recheados de ser esta possibilidade. Uma verdade simples que se distancia do problema, de ser um problema; é algo inefável. Vamos desfazer-se de mim, detestar ou odiar qualquer movimento transcendente tem conotações de valor. Valorar, mistificar ou sentir uma espécie modeladora, um recanto multifacetado entre premissas ácidas, claras. Não há um tipo que atravesse ou substitua esta sensação, não há uma saída ou cura. Vamos desfazendo-se disto.
Labirintos e espelhos, mas reflexos sobre alguém se faz necessário algum outro; não somos espelhos de nós mesmos, autoanálises a este modo são o puro labirinto simples. Cada proximidade ou epifania, está acometida do ego, dos dizeres do próprio ego sobre si mesmo e assim criam-se novas curvas para uma nova suposta saída. Lá no último degrau, pessoas vêm-no e lhe atiram olhadelas manchantes, deixam rastros de tinta misturada; cabisbaixo, respirando aflito uma agonia prática, o nascimento deste novo lugar. Simples ou prático, razoável. Sensações são como reflexos, luzes pontiagudas entre lâmpadas acesas sem controle algum; ressecam os olhos, impelem choro, mas deixam-no estático. Sentado lá, entardece aos poucos anoitece e só consegue mover rangendo as bolotas dos olhos secos. Isto é viver.
Radiantes expectativas rastejantes nas poeiras temporais, nas próprias condições. Deu a si um controlo, afastando figuras tentaculares com dedinhos aflitos. Viste ou veria algum lapso radioativo para afirmar sua patologia, mas desistira ou desistiu. Diante da inquietude representada, nas químicas derramadas pelas frestas dos olhos; deita e vê o piso com as cores difusas, boiando sobre um rio enevoado e semelhante ao daquele grito silenciado quando infante. Põe as mãos na água, puxa para perto da língua, sente o gosto deste silêncio.
Levanta-se enfim, alisando as têmporas e tossindo forte. Afasta o lugar nascente com um sopro malogrado, olhos baixos e uma voz rala, escusa. Lembra alguns momentos transformados em estática na letargia da sua alma, lambe os próprios lábios e aflito desce as escadas. Quartos enumerados, portas pequenas e grandes, algumas apagadas, outras com cadeados e grades. Luzes neste horário rejeitam-no, há lentidão nas canelas e joelhos, rangem feito máquina velha. Rostos aos poucos tomam lugar dos números, cada um ali no prédio remonta-o, traz de volta a sua própria decomposição. Nos bolsos além da carteira buchuda, vibra o celular. Há sangue navegando pelas veias, uma intimidade familiar, um respeito nascido e inefável, idêntico à morte. O gosto do silêncio induzido. A ligação é das mãos mornas, deste último afeto. O térreo é sem cor e sem vida, traz consigo suspiros e chiados de vozes morfadas. Não há sequer um homem, sequer uma mulher ali. A portaria com telhas caídas e um portão semiaberto o tempo inteiro. Nas calçadas adiante alguns prédios emergem, outros são abortados quando estão começando a tomar forma. Postes translúcidos, névoas borrifadas dos anjos gigantes que sobrevoam o céu nublado.
Olhos calmos descansam enfim ao sentar-se em mais um dos degraus, este na saída próxima ao asfalto. Observa o celular piscar algumas vezes, descansa uma ideia fajuta e respira aliviado. Ir até algum lugar, submergir incauto para retirar do âmago o sentimento desprezível. Há nesta resolução um vislumbre semelhante, feito vulto que atiça e eriça todos os fios de cabelo; um vulto simples, a disposição e saída, toda superação para a inquietude contida na química. Ir até onde tenha álcool, ir até onde o imaginário confunda-se com todas as outras partes do corpo, sua língua traduza lapsos entre desejos voluptuosos, carne e sede, sede para desfazer-se entre goles, tragos; ali precisará ir, para que não morra hoje. Então treme, resistindo uma das suas convulsões comuns. Curvando na parede e desatando um nó turvo, deixa a lágrima cair e remói a agonia de estar no mesmo estado.
Há neste tipo específico de solidão, de ser só. Suas mãos, seus dedos projetam desculpas, arquitetam súplicas e insatisfeito em cada detalhe destas exposições, volta aos cumes dos quartos silenciosos. Verdes e cinzas, névoas amontoadas pelos cantos, entre livros, ideias. Saudade é o ápice que lhe retira da agonia, a saudade traz a si um sentimento ordinário, a semelhança com o afeto e amor. Tentar existir convoluto. Deixar que o silêncio persista, instaure. Convoluto e puxado por tentáculos, razões inesquecíveis e oriundas destes alheios. Há aqui um lugar, este lugar resiste pela movimentação destas cores, destes sentimentos. O silêncio induzido ou a testemunha de si mesmo, em decomposição.
Desculpas quando um quarto reduz o próprio corpo à penumbra, aos poucos transformada na mescla e a confusão, do que é mão e breu, do que é morno e eu.
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