dismas.

DISMAS.

19, ABRIL, 2023.

A pior súplica terá sido esta e o tempo revelará mordazmente entre deformações do rosto. Minutos esgueirados pela fetidez embaraçada dos trapos, poeiras, traças. Resumos mirabolantes para dias ridículos, resumos apoteóticos para dias minúsculos, resumos sistemáticos para mesmices colossais. Ergue-se lentamente evitando tremelicar no esforço, desgrenha cabelo, coça barba e com o indicador pressiona os óculos. Suspira aliviado imerso nesta calmaria escassa, prevendo deslizes e quedas ao pisar fora. Os olhos marejam acometidos por memórias convolutas, deixam lágrimas escorrerem. Tempo e espaço amiudado por nostalgias intangíveis.

 Abre um corredor cheio de curvas, portas e janelas geométricas variadas. Luzes esverdeadas, amareladas bagunçadas entre distâncias que as misturam. Prestes a entrar observa algumas crianças brincando na primeira rotatória; grama sintética, bancos enferrujados, fresta circular permitindo lanças solares. As misturas turvas cessam por um instante enquanto mira o teto-infinito e observa o claro de um suposto sol descer quase divino até o meio da sua testa. As crianças desatam risos acústicos por alguns segundos, percebendo sobressalta, ignora e continua a caminhar. Cômodos quadriculares, retangulares, cada apartamento lembra-o caixas de fósforo, caixas. Há línguas diferentes, gritos emendados uns nos outros, risos e choro, rotinas infinitas. A manhã iniciava-se pelos bules, pratos batidos e chuveiros, sintonia burocrática. Em contraste o riso escarninho-mágico dos infantes gesticulava consigo um sintoma aterrorizante, de mais se parecer com elas que o contrário.

 Três batidas rítmicas evitavam-no de falar quem era. Caminhou por ruelas, curvas, rotatórias, quartos espremidos uns nos outros. Algumas rotatórias não continham frestas, mas nas que tinha parava religiosamente, deixava arder um pouco; sentia falta, a sinceridade contida no riso infante, d’um homem parado e a luz no rosto feito um raio estático. Mais três batidas, ouviu então uma arfada violenta e passos apressados, vasculhos, coisas caindo variavelmente, gavetas abertas, armários. Enfim uma portinhola triangular geme dando vistas a um rosto cadavérico, trapos de cabelo, olho de vidro branco e o outro castanho claro, seu sorriso expande dentes esguios esverdeados e em seguida reagindo lentamente o desfaz confirmando a visita afasta-se e estica a mão apalpando dois documentos lacrados. Cauto o homem observa os papéis selados por instantes ligeiros, música rompe aquela quietude rotineira, violinos e pianos; gesticula para o triângulo e vira as costas. Guarda o conteúdo no bolso da jaqueta, fecha o zíper continuando seu percurso.

 Olho-de-vidro era famoso naquela parte, guardava consigo segredos e toda bugiganga possível; tinha contrato selado com as crianças das rotatórias, elas traziam quadros, cigarros, livretos, revistas, coisas abandonadas por pais e familiares. Olho-de-vidro não recusava sequer livro repetido ou cigarros molhados, adorava o escambo, a depender ganhavam chocolates inteiros ou pedaços cortados minuciosamente com faquinhas específicas; havia entre elas as que preferiam histórias ruidosas tumulares, Olho’ possuía aos montes, muitas trágicas fictícias, outras verdadeiras, era feito rolar dados. Seu container organizado por caixas enferrujadas, umas sobre as outras formavam caracóis; reconhecia-as cravando símbolos-adesivos variados, escondendo nas mais baixas coisas simples e no topo segredos mágicos. Uma escrivaninha descansava por baixo d’uma janela aberta, por cima documentos organizados, xícaras de café e garrafas, notebook aberto, na beirada uma cafeteira gemia. Sua cadeira acolchoada larga quase um sofá, buracos nos braços guardando bitucas de cigarro e mais xícaras, copos. A lâmpada brilhava em um branco altivo-puro, diferenciava bruscamente das cores empoeiradas lá fora, quando abria seu triângulo para receber visita encadeava olhinhos e olhos, dando a si tempo para recompor-se ou simplesmente não parecer tão absorto.

 Caminhou por minutos acostumando-se às variações de iluminação, vez ou outra tateava a jaqueta para certificar que ainda estava tudo ali. Uma última rotatória surgia, contendo dois caminhos possíveis. Na frente a parede perdia-se na penumbra, na direita mais apartamentos empilhados entre portas, janelas geométricas e virando à esquerda os corredores acabavam. Barulhos arrastavam-se pela fresta d’uma porta alta incolor, nada escrito ou maçaneta visível. Dismas parou diante dando duas violentas batidas. Seus olhos espirais marejadas e turvas. A rouquidão agressiva fez-lhe a pergunta que respondeu com três batidas suaves. O gemido agudo mordiscou seus ouvidos, vagarosamente aquela forma bruta abria-se, injetando um clarão vertiginoso ao corredor. Naquela parte ninguém ousava chegar, não só pela ausência de iluminações, mas pelo barulho, atrás do portão a mescla ruidosa causava inquietação e medo. Nas madrugadas em que o silêncio mais parece agulhas, misturar aos ruídos mesclados invisíveis, seria insuportável. Dismas sabia e nisto estava contido o infinito daquela agonia. Esperar em si dava-lhe tempo, estar parado dava-lhe tempo, tempo em si era detestável, trazia consigo a possibilidade de lembrar e pensar, não queria pensar. O fim do gemido deu-lhe um alívio, gesticulou para o alto mesmo sendo engolido pela luz e pisou na calçada cor leite, até acostumar-se tudo era disforme e misturado, seu corpo junto aos ruídos, cores translúcidas; até acostumar era uma coisa só com o mundo.

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