05, MAIO, 2023.
FALAR.
Submetido a esta queda, resta-lhe cair. Vozes mancham sua pele áspera, vertigens açoitam-no, passo a passo entre caminhos turvos entrecortados; não há semelhança visível. Em si lateja, pulsa sermões inebriantes, cautelas gesticulares, odes e desespero líquido viscoso derramando dos lábios. Lá fora escutam gritos agudos escalando paredes empoeiradas, abrindo frestas. Sua forma raquítica resplandece a mesmice pueril, olhos calmos claros descansam sobre transeuntes, estica braços e mãos abertas aos outros. Essa esquina é a mesma da anterior, mesma luz enxofre pingando na sua visão turva. Crianças saltitam em passadas rápidas para suas casas. Não consegue lembrar se houve casa, se houve paz. Deixa a porta trancada para evitar visitas, para evitar que saia. Seus olhos pausam vez ou outra onde devia, onde a coisa está, mas ao tocá-la esvai, mesmo perifericamente ao contato minúsculo, rejeita-o. Dizer a mesma coisa, dizer a mesma coisa. Querem pedaços, arrancar braços e pernas, deixá-lo ser oferenda. Algo divino aos infinitos labirintos.
Um osso caiu e prendeu na garganta, calos pulsam grudentos às cordas vocais, falar torna-se tarefa impossível; a língua saboreia dentes, gengivas, céu-da-boca inertes; convolutos neste silêncio inexorável. Suas mãos agridem costelas, unhas cravam pele, mãos soterram olhinhos miúdos feito véu; nada o faz falar. Suplicar a quem. Fantasmas germinados entre cantos miúdos, odes insatisfeitas dos dias terrenos noutros tempos, épocas possíveis de ser; criança, adulto, adulto, criança – um salto indiferente. Apontam seu desprezo já sem pena, afastados nos seus reclusos cantos obscuros, trovejam conversas inalcançáveis para os seus dedinhos. Deixem que petrifique e permaneça, há estes que não deviam mesmo ser nada.
Não há dor tamanha, sabes disto, ainda tenta manusear altivamente suposições tão deploráveis. Esqueça-nos. Disputar quais premissas, quais lógicas. Não caia nos obstáculos impostos. Não despeje e sucumba aos gritos das vozes tumulares. Você fala d’algum lugar. Qual lugar, qual época. Lembre-se de não repetir. Há um preço imensurável nos saltos, cada degrau destitui-o. Lembre, cada janela fora uma brecha, fresta para o que viria a lhe invadir.
Pensar e ser é o mesmo. Cada quimera projeta possibilidades indissociáveis, cada trajeto surge feito açoite nas costas nuas. Meus olhos ardem. Gritam. Meus olhos gritam, não têm língua alguma. Olhar e ser é o mesmo. O lugar mais parece uma cova do que cela, não há grade, não há janela, não há porta. Não há condenação alguma aqui, há morte, há decomposição.
Suas vozes convolutas manuseiam cada segundo inesgotável, horas antecipam processos químicos detestáveis. Dizer a quem. Puxam para lá e para cá feito manequim, feito carapaça abandonada n’algum canto. Quando despertado tateia cabeceira, mesinhas em busca daquilo, da coisa que lhe faria apagar. Há algo de humano ainda, mas lhe rejeitara. Tratar e ser é o mesmo. Tocam calmamente seu corpo exposto, quando choraste até manchar as cores no espaço redutivo ali no quarto. Músculos atrofiando, contorcidos de repente, uma ode simplória por pena, suplicando algum cuidado. Dói, não é? Dói. O ar condicionado arranhava, caia nas partes expostas feito gelo. Não lhe tirariam daquela dor, nada lhe tiraria. Então silenciava, condenados não deviam choramingar ou sequer maldizer, aceitar condições naturalizava-se aos poucos todos os dias.
Masquem impiedosas criaturas, arranquem e entre dentes compartilham os pedaços, não poupem centímetro algum deste aí que mais se assemelha a um assecla odioso, travestido d’algum anjo arruinado; veio-nos como profeta, como alguém que sabia d’alguma verdade, d’alguma certeza, mas em si não modificaste nada; trouxe peste e praga, trouxe esperança da pior espécie, a que ligeiramente se desfaz na primeira questão imposta. Eu mereci isso também, deixem levar minha cabeça ao altar, deixem decepar-me infinita vezes. Sou esse a quem a inércia de qualquer resolução trouxe consigo somente desgraça. Cauto ou mentecapto, incauto ou genial, na verdade nada fora, só um sopro desesperado repetido entre os minúsculos quaisquer d’outras épocas, vejam, venham todos, açoitem enquanto ainda há corpo para tal, gritem enquanto ainda escuta. Fins são deste jeito.
Deram-lhe a vida, vez ou outra acometido por memórias inquietas indissociáveis rasteja pelos cômodos labirintos quais inserido logo cedo contempla. Seus gestos são pueris, morais, teme alguma agressão burocrática divina, mesmo passando anos inteiros ausente. A família é uma mancha, sangue é feito grilhão, tempo e espaço reduzem-no ao pó. Ecos, eles acordam-no feito ecos sombrios. Quais ou algum, desperte-o antes do padecer eterno.
Compartilhar a mesma linguagem, mesmo tempo, ser contemporâneo das possibilidades infinitas a qualquer ouvinte, qualquer compartilhar histórico. Ao passar vertiginoso dos anos reunidos em uma folha pequena, mal escrito pelos tentáculos inexpressivos destes algozes divinos. Diabretes gigantescos aconselham saídas ruidosas para princípios ativos simples. Humanos não escapam de serem humanos. Nem aquele que vê no sangue um inferno irredutível de semelhança.
O tempo em si circunscreve inescapável, mas lembrar é uma chaga infinita a todo aquele que nada esquece.
2.
Não há sistema ou conhecimento tangível para simular minimamente um escape resoluto, uma cura pequena. Há somente lamento, há somente pena.
Quantos dias não transformam o desejo em desespero, a culpa em um sintoma redutivo ao momento instantâneo. Foi só um lapso, julgamento ali em um momento só.
Falar aos poucos torna-se abrir costelas nas dentadas, falar depois de algum tempo é como esquecer portas abertas, janelas. Falar as vezes não é ser.
Há muito tempo isso está manifestado, há muito tempo,
Talvez não sejam vislumbres,
Talvez realmente seja,
Isso cá
O absoluto nada.
3.
Gritos suplicantes arrodeiam passos e corridas, crânio comprimido em cada vertente duvidosa imposta pelos sujeitos inquietos. Os quilômetros trazem consigo diferenças coloridas, arquiteturas, cheiros, ruas, sistemas e rostos. Transeuntes são manifestações, assolam com violência o peito aberto.
Ser homem, ser humano, ser.
Pedir ou falar, falar ou suplicar, lamentar ou dizer, tentar ou nada.
Nada.