INSUSTENTÁVEL.

13, JUNHO, 2023.  

Aspectos ordinários conduzem este espírito, requintes simplistas, rotinas displicentes. Vergastadas de um sol mesquinho abrindo fissuras em vidraças. Quais odes tirariam ou sepultariam enfim esta causa ruidosa egoísta. Caminhos turvos entrecortados por lampejos cáusticos, situações odiosas. Memórias conduzidas por barqueiros infiéis, jogando pragas aos céus opacos; ele estava amarrado a cordas espinhosas, imobilizado há dias. Canções repetidas daquele lugar a chegar, donde ecos sórdidos acoplavam-se uns aos outros feito correntezas, torres em serras, braços e mãos tateando com violência a barcaça pequena; vez ou outro soerguiam até a proa, cabeças com pele derretida, decompondo-se a cada segundo. Paz pouco a pouco distanciava, vinha feito um susto inebriante, estremecendo ossos. A forma coberta por panos rasgados gesticulava para este deitado, detrás d’as sombras induzidas pelos véus podiam vê-lo sorrir, a si o processo não trazia consigo nenhuma diferença específica, o homem ali era só mais um ante todos os outros. O rio expandia agora apagando junto na distância todas as terras visíveis, restava agora um céu enegrecido por nuvens acinzentadas, brasas ardendo e outras embarcações indo e voltando d’algum lugar.

 Plataformas apareciam, projetavam luzes esverdeadas, amareladas variáveis feito faróis. Ondas quebravam nas pernas, mas sequer balançavam; soavam feito trovões ásperos. Nos topos viam-se homens badernando ao som de violas, canções cantadas por gargantas rasgadas por cinzas; separadas por quilômetros uma das outras, entonavam línguas diferentes. A visão prejudicada pela imobilidade condenava-o a imaginar quais tipos ali estariam, porém, suas vozes transcendiam do tumular ao celestial. Lágrimas escorregaram ardendo suas bochechas, a voz feminina santificada saltou e caiu no mar silenciando todas as distorções quebradiças, enveredou pelos ouvidos plácida caramelizada, entre pausas na pele, tímpanos, o olho lampejava junto aos gritos de alegria; por dez minutos tremeluzia submerso aos falsetes azulados, mesclados por graves cinzentos, excitava-se ao flutuar. Quando pensara ter enfim sucumbido, salvo pelo feminino ápice pueril, um sopapo violento esquelético chacoalhou sua face esguia, o barqueiro olhara-o nos olhos pela primeira vez, para lembrá-lo que não havia morte possível, não mais.

 Gotas d’água caíam devagar daquele céu incolor, mordiscavam sua pele exposta feito britas miúdas. Gemia em vão, os cantos ficaram para trás. Atravessavam agora corredores cortando recifes altos, vez ou outra olhos rompiam o cenário estático, mirando-os. Eram crianças raquíticas pulando d’um recife ao outro. O breu já caía feito tinta nas distâncias visíveis, confundindo sua memória. O mar, teria de ser mar, essa coisa ante mim escondida por panos infernais. Essa imobilidade, teria de ser o mar. Sua mente trafegava por recortes pitorescos, trajetos, rotinas; uma busca rasa por culpa, a si surgiu repentinamente que devia ter a culpa d’algo nefasto para estar sendo levado. Grades em janelas pequenas, passos, gritarias. Ir embora sem dizer nada, não dizer mais nada por meses inteiros. O egoísmo. Mas ninguém se condena por egoísmo. Não é possível. Eu só pensei em mim. Que há de nefasto em mim?

 As cores convulsas envoltas em si, massas modeladoras produzindo caleidoscópicos hipnotizantes apagando quilômetros inteiros por onde olhava. Pupilas giravam espirais redutivas. O que é nefasto em mim? Sua boca abriu enfim, puxando cola entre os lábios e a língua seca áspera tentando umedecer para fazer ao homem uma pergunta só.

— Que há de nefasto em mim? Que há? Oh, Deus. Vê, olha-me cá, dum pedaço ao outro. – Sua voz arranhava o pescoço feito brasa, tão grave ruidosa, parecia não dizer nada há semanas. – E junta, tenta juntar, meu Deus, que eu fiz? Que será que fiz?

 A coisa ali a remadas rápidas ignorou, esboçou uma reação milimétrica em concordância, feito resposta de que sim, havia algo nefasto. Sou isso então, enfim, algo a ir, que já devia ter ido. A pausa brusca despertou-o da agonia, diante de si erguia-se um portão alto enferrujado, preso por correntes. Pessoas brincavam na praia, cadeiras, mesas, quiosques, a areia cor chumbo. Todas as mulheres tinham rostos iguais e os homens não tinham rostos, eram vãos contínuos espirais de um nada incolor. Caronte saltou, mas antes cortou as cordas que o imobilizaram até ali, braços e tornozelos em carne viva. Ficou de pé, mas não causou alarme algum no homem robusto escondido por panos. Olhou perplexo aquele cenário repetido tão inebriante, quilômetros d’areia em curvas lá longe. Mas uma imagem abriu espaço entre costelas, viu duas crianças a deriva, uma deitada na prancha e outra entre mergulhos assustados. Caronte pulou novamente e começou a remar.

— Eu sei o que viu. Não foi saudade, não foi medo. Foi o tempo, tempo rasante, detestável, inseparável dos teus dias. Todos os dias alguma coisa lhe lembra do tempo. O desespero d’estar à deriva nunca se dissociou de si, não há um outro mais à deriva que você. As crianças ali vão esquecer, e você?

 Caronte falava detrás do véu sorumbático, nublando qualquer alegria possível. Em si era a pura apatia. Seus olhos pressionaram novamente, deixando cair lágrimas verdes. Nefasto a mim é não esquecer? Há vida a mim? É possível viver sem esquecer? Mordiscava os próprios dentes evitando falar-lhe qualquer coisa, Caronte não parecia receptivo nem disposto. O tempo vinha-lhe feito machados, guilhotinas, memórias rastejantes ácidas pelos ossos e músculos. Cada centímetro navegado desmanchava sentidos possíveis por vida. Não há morte vindo lá, não há nada mesmo?

2.

 Suplicar vinha açoitando suas traqueias
 Resgatava das memórias razões, justificativas
 Para este caminho infinito, intransponível 
 Donde a morte lhe era recusada;

 Gemidos aflitos e gritos por salvação,
 Reduziam suas súplicas a algo mísero,
 Inconsequente e deplorável,
 Era feito chorar pura mesquinhez;

 Recusava trocar palavras,
 Desdizer ou dizer,
 Recusava compartilhar,
 Estava aceite o processo,

 Deste nada convoluto, 
 Incandescente feito uma luz injetada
 Na fronte, na face,
 No espírito;

 Veriam sem piedade alguma, 
 Onde o ato fora desistir,
 Onde ser não mais era possível,
 Onde o corpo é o mesmo que uma ideia em decomposição;

 Quis ter sido ideia, lembra convulso
 A ideia destas composições
 A ideia duma delicadeza magistral
 Mas eterniza-se como um homem que nada é;

 Recusaram-lhe a morte,
 Tiraram-lhe a vida,
 Deixaram ser o ápice
 Do ser só,

 O amor como uma robustez malograda
 Caindo sobre os ombros
 Desaba na chaga mirabolante
 De ser insustentável.

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