14, JUNHO, 2024.
INUMANO.
Foscos olhos aguados, misturas apáticas solícitas. Somos verdejantes oscilantes vagarosos, tememos prognósticos funestos abençoados por demônios animados. Corjas açoitam peles, chicotes de arame farpado. Questões postas esmagadas pelos detalhes deploráveis; a indiferença raiz moribunda destes males vergastantes. Somos úlceras borbulhadas amornando todo olhar incauto, arremessando homens santificados às masmorras eternas. Lá onde o último sol brilha tendemos estar, onde nada mais será reconhecido; toda luz minguante, escassa, toda forma em desgraça penumbra. Verdes sonhos jazem estáticos, pulsantes aprisionados preciosas gemas infinitas; vê-los impotente, toda força arremessada, sugada. Vá, mas não volte, vá mas não fique, vá e continue indo; ao ponto ápice, ao fim da primeira epifania.
Quais verdades suplicantes necessitam tamanha complexidade, qual diferença romperia das mãos diabólicas, rasgaria seus tendões; fariam ajoelhar e em seu lugar miserável permanecer. Sujeitar-se, ser sujeito, ser algo que não desgrude das continuidades sociais; como criar algum horizonte vivaz iluminado. Toda individualidade esboça tragédias simplistas, muros, muralhas distanciam-nos lentamente; condomínios destroem seus bairros, viram seus feudos, há em mim existência camponesa. Cada casa uma miragem plástica indiferente, sem visitas, moribundos trajetos rotineiros. Olhem-me quando for possível entre distâncias territoriais mirantes, torres malogradas. Técnicas tecnológicas mortificando saídas, arruinando todos os dias futuros; seus prognósticos multifacetados, propostas quânticas irretocáveis ante os corpos empilhados, covas rasas diárias. A desgraça sequer causa rompante, sequer causa silêncio ou luto, há costume com a destruição, toda fantasia cinematográfica gélida com seus açoites de classes, com seus genocídios por razões de roteiro. Somos a guilhotina autônoma monstruosa desta inquietude metafísica capitalista, sequer há oxigênio para transformá-lo ou destruí-lo. Há somente isto, o ser vivo respirando lixo.
A tarde mordia minhas pernas alongadas com seus pingos de chuva. Meus dedinhos miúdos fraquejantes arranhavam meus olhos, pressionavam tentando arrancar de si o desconforto ligeiro; abro-os e transportado, ante mim um branco pálido substituía o cinzento cimento. Pouco a pouco manchava todas os lados, minha córnea, íris, fechava e piscava, tudo brindava esbranquiçado nevoeiro. Os céus nublavam violentos, chuva miúda alegrava e misturava-se aos traços pintados de branco. O mundo ruía agoniado, pensei por alguns instantes naquele teor limbo, toda vida pulsante colorida esmagada; todos os destinos do mundo visível transportados para uma miragem fantasmagórica. Levantei tateando corpo, coçava, sentia-me. Junto à janela seu marrom envernizado perdendo forças, árvores esverdeadas lamuriando seu destino crasso. E cessou como substância diluindo pouco a pouco perdendo seu efeito divinizante. Veio a mim somente o limbo de Dante, onde tudo está ali, e estando permanece sem futuro ou passado, sem espaço.
Sucumba ao ato carnal, sucumba e seja contínuo. Somos diferentes mesmices, vislumbres mágicos roubam-lhe a forma e ar, deixam-lhe perplexo transfigurado. Sente chacinas místicas ocupando o espaço da alma, seu imaginário raquítico transformado em águas finalizando ondinhas nas beiras desmanchadas. Lógica, sentido e prática. Destinos inefáveis mastigam seus corpos fraquejantes, tateiam-lhes incautos, desprezíveis.
Veja, não há aqui diferença nenhuma, veja bem, tudo aqui é processo continuado. Você, qual nome esqueço ao acordar todos os dias, manifestando tamanha habilidade, tamanha criação; está regozijando um sentimento inautêntico, idêntico em verdade com aqueles já decompostos enterrados. Note, note calmamente que seu crânio em nada difere dos seculares, milenares. Falta-lhe épocas inteiras, ser, para finalmente tecer e ser capaz da suprema diferença; da diferença transcendente idealista, revolucionária; enquanto o crânio for este mesmo, esta coisa desgraçada, todo ato levará a sua contradição e dela só mais uma outra e nisto os corpos amontoam-se aprisionados. Abençoando futuros sepultados.
Desperto inumano lapidando o corpo, caminha por ruas discrepantes. Junto ao corpo faca, pistola; o coldre arrodeia-lhe a cintura escondido pelo sobretudo preto. Seus dentes amarelados cinzentos chispam, a língua passa por e enfim deságua pela abertura dos lábios. Um poste ilumina essa última esquina inexpressiva, curvada por um asfalto quebradiço, assombrado por duas árvores altas. Descansa seu corpo esguio curvado junto a fonte de luz, há um fosco puro arrodeando suas córneas feito veludo, tira do bolso largo seu isqueiro e cigarro. Há uma expectativa lancinante prateada pulsante ao seu redor. Fumaça agora benze-o, densa grudenta feito tinta. Passos ligeiros escuta agora depois do sétimo trago. Sua língua pontiaguda escorrega até o queixo, suas mãos ligeiras felinas vão ao coldre e prepara algum sentimento imanente desde seu chegar. A luz fraqueja exausta, poucos metros dali dois homens trocam palavras altivas e barulhentas. Inumano os dá boa noite, espera-os virar e saca sua pistola prateada que suga para si todas as luzes exaustas daquela última noite nefasta, o eco surdo transfigura a quietude magistral de toda madrugada; uma bala atravessa o crânio despreparado atirando pedaços ossudos, cérebros e um olhos desgrudado da sua fonte deslizando pela calçada. O outro sequer respirou seu último segundo, não houve reação ligeira para lhe tirar deste brindo sofisticado heroico, deste arrancar do espírito corpóreo para outro. A segunda bala abriu espaço pelas costas, furou coração estacionando-se lá apaixonada. Caídos permaneceram madrugada adentro, alma nenhuma desejou sair e visitá-los. Inumano desfez-se daquele sentimento, voltou a algum lugar e lá não permaneceu.
Ruídos continuariam amaldiçoando-nos mesmo que o dia desfeito ficasse e todo o tempo desconjuntado ficasse. Voltaríamos pois toda ida é um retorno, todo retorno é uma ida. Há isso ainda, há a vida.