04, AGOSTO, 2024.
TRÉGUA.
Juca está só. Não lhe é novidade. A mesmice e os mesmos estados. Lembra amargamente, arrasta o corpo esguio pela cerâmica fria empoeirada, seus olhos sofisticando aquele horizonte malogrado. Há brilhos sinuosos nas migalhas de poeira, nos raios atravessando frestas. O sol germina um erguer-se involuntário, é homem igual a qualquer, sua carapaça medonha é aflitiva somente a si. Ontem esteve embriagado lamuriando, beber tornara artefato delírio; mascava a língua afetada, tangia-se como buscando veias para agulha. Desejava findar a tormenta, sua tormenta.
-Cá estamos, diabo! Veja, estamos cá! – Abraçava violentamente a Lúcia que sobressaltara assustada até perceber quem era. – Os dias estão contados, sabemos! Amanhã talvez nem exista, ah, ah, amanhã talvez nem venha.
– Agonias, Juca, caralho. – Imperioso dizia Dismas trajando aquele sobretudo surrado cinzento e óculos escuros iluminados pelo adeus daquela tardezinha. – Senta aí, mal começamos! Já está lá longe.
– Que tu sabes, em peste? Ah, ah. Vero… (solta a Lúcia que estava rindo muito), sentem então! Lamentem quietos, que isso daqui é para lamentar quieto. Ah, ah. Quem bebe parado? Oh, senhor, quem me fizeste assim?
Folhas balançavam com o minguar de mais um dia ensolarado. O calor perpetuava motivos, modificava vestes, menos ao Dismas que trajava sobretudos quando saia, indiferente a qualquer clima. Nuvens cinzentas iniciavam o sepultar daquela amarela alaranjada festa solar. Como doutras vezes houvera nenhuma razão, beber lhe era hábito. Fosse só ou acompanhado havia um espaço elementar da existência necessária indagar, há nos vestígios alcóolicos séculos inteiros de desejos reprimidos e lamúrias abissais, Juca era um profeta deste sentir. Chamava-os mais por uma imposição social à abominação funesta do beber a sós. Bebia sozinho quando queria lamuriar.
– Não temos nada a dizer de novo, não atoa estamos aqui, de novo. A utilidade é nefasta, ao menos a mim, que sou minúsculo. – Seus lábios tremelicavam afetados, os olhos injetados, cenho franzido. – Eu venho de novo e de novo, há violas que são elixires; as ouço, e ah, ah, quero esvanecer. Oh, senhor.
– Traz três doses, José, vamos inundar hoje. – Dismas falou com a euforia de um pássaro caído. – É, o trabalho foge dos teus dedos como moscas, em? – Riu alegre mostrando seus dentes brancos cerâmicas de cavalo.
– O trabalho não foi para cada um feito. Compactuo que, há gente que não se dissolve na rotina e por tal despenca, adoece. Não devia existir um tipo só de vida. – Lúcia descansava juntando suas frases, falava com um labor sutil delicioso. – Se o Juca está aqui, depois de tanto, merece estar e pronto.
– Ih, ih! Eu me impeço, segundo alguns, principalmente o pai. Qual pai desejaria um inapto, que vez ou outra discorre violentamente sobre o mundo; com a própria percepção. (Com um soco gravo na mesa aponta para o próprio peito) Qual ventura está em possuir visões, percepções. Ah, ah, tudo acaba em um brindar inesgotável e horripilante de uma vida. Como se a vida por si fosse autossuficiente, sabemos que não. Ah, ah. Vocês, não reconhecem o tamanho da minha inveja.
– Nós sabemos, chaga. Por isso estamos sempre aqui. Sempre lhe apoiaremos. – José chegava com as doses servidas, limões cortados e sal. – Agora poderemos adentrar.
– Nossa, galera, sério? – Perguntava inutilmente Lúcia com seus olhos negros inundados pelo esbranquiçado luar.
-Ih, vai desistir? Mal começamos.
2.
A arma descansava sobre a mesa. Uma garrafa pela metade, copo cheio. Juca descansava a cabeça nas mãos. Cotovelos arqueados e dois minutos soluçantes lacrimosos. A arma era para algum feito futuro. Algum feito nefasto, seu cérebro fustigava em momentos oportunos visões polvorosas, pólvoras, lamentos e sangue. Eram visões açoites, violências reprimidas. Há em todo humano um desejo inoportuno, inconsciente, a razão silenciada ou esmagada para em seguida voltar, forte qual um atropelo. A arma lhe vinha deste modo, sabia que ao atirar perderia parte de si.
Quantas partes não foram entregues ao nada. Nada sendo a palavra mor do futuro, seu corpo opaco desfeito. Ao nada entregou quilômetros inteiros magoados, sufocados prognósticos, ao nada todo aquele não ir, não fazer, não ter feito. Hoje acuado por mais uma epopeia lamuriante dos horizontes enterrados, pelo fato mordaz sou aquele que sempre desiste. A arma sequer pulsara contra sua fronte, testa, o nada não lhe rendeu suicídio, sequer fraqueza ou desejo mortal. Deu-lhe o imaginário, a vontade e o choro contido somente àqueles que caem.
Sou tão caído quanto vivo. Caído traz consigo labirintos deprimidos, visto o comum ser a mundanidade entre tristezas e efeitos alegres. Há um movimento retilíneo que não bifurca, é perpétuo. Juca atribuía enfim ao nada, dentro imerso há somente futuros, mesmo deletérios e vis, é o destino da vida humana. A tristeza e alegria costumava brindar ao mundo humano casual. Onde se compra, se gasta, se diverte, se ama. Mas o áspero ruído volta, por não se bifurcar na perpétua magia linear, ao nada. Amá-lo como dizia a si hoje, era despertar finalmente com um sentimento puro e último, o nada. Não estar depresso por causas mundanas, estar imerso naquele nada pueril ao qual voltamos – pura apatia.
3.
Doses viradas. O gosto amargo adocicado mordiscando cada milímetro enquanto descia. As expressões ao chupar limão, engolir sal. Entreolhavam-se olhares chorosos alegres, ritual alcançado.
– Ah, que seria dos dias, destes dias em que o homem está tão escasso e só. Que seria sem vocês? Sem vocês seria tão nada que desapareceria. – Juca babou as últimas palavras limpando velozmente. – Ih, já estou naqueles níveis? Ah, ah.
– Sem você, Juca, o tempo estaria lá e minha vida seguiria idêntica e sôfrega. Não seria terrível, mas também não seria bom. – Dizia Lúcia arrastando escombros pelos corredores da sua memória e vendo a realidade dura das suas palavras quanto à sua rotina simplória.
– Lhe ver, chaga, mas parece um horror do que virtude alguma. Tens uma vida, dela parece tirar tudo a sós. Acho incrível.
– Achas nada, verme. Se achasse hesitaria em cobrar algo de mim.
4.
Há repetições suplicantes nos hábitos descritivos. Pontos não dariam tréguas por razão própria, meu corpo orbita sensações únicas e próprias. Meu corpo é a razão e o derretimento diametralmente oposto à esperança. Apatia ou não, estado ou não, vida ou não. O caminho trágico retilíneo das tentativas malogradas pisoteadas por princípios de puro amor.
Criar é um instrumento humano, criar, organizar e dar-lhes vida. Os horizontes precisam ver-nos claros e límpidos, onde cada fragmento próximo do outro gera vidas possíveis.
Minhas repetições são desde um momento antigo inenarrável pela falta linguística. Lá já infante matraqueava pelos corredores assombrosos da alma, mundos, planos; sempre medo, medo eterno.
Hoje estamos diante do olhar inesgotável e dele toda vida manchada. Senti inveja humana desde o primeiro instante em que relaxar, descansar mostrou-se possível. Ou quando a atitude era somente um ato e não um emaranhado vertiginoso de agonias.
Talvez os deuses tenham me feito como aquele abismo é infinito.
5.
Luzes cinzentas. Sonolências pueris. Corpo cansado.
insondável abismo
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