JALLET.

04, FEVEREIRO, 2026.

JALLET.

Ouço o lento crepitar da vida porvir, arrasta-se solícita; súplicas germinantes incessantes inquietas, torpeza, vileza. Odes ao desespero puro daquele instante nefasto. Meus dedos gotejam lágrimas sangrentas. Memórias pestilentas açoitam meus ouvidos, tropeço e caio na pulsante lateralidade daquele amor eterno. Nada está feito ou desfeito, tudo é continuado dos instantes ativos, princípios contratuais por mim assinados. Lento o precipício clama pelo meu corpo, vagarosas testemunhas oculares acertam certezas voláteis sobre meu declínio físico. Dentes e febres colossais, ruidosas memórias indigestas. Saída nenhuma existe a mim, caído permaneço, rasgado pelas incertezas pueris, malogrados ressentimentos detestáveis; nada está feito ou desfeito, seu rosto pulsa até mim e as imagens dilaceram aquele meu adeus retumbante, clínico e cínico. O amor de então desfeito descontinuado entorpecido por um átimo cáustico e sua face tatuada na minha memória inevitável. Disse adeus como quem morre.

 O caminho é o mesmo, não há curva nova ou declive sequer postes acesos. Da ponte ouço carros e motos, motores sistemáticos, rotinas audíveis. Tenho um segundo inerte incerto, meus pés travam ante a campainha, sei da proposta melindrosa certeira, sei das razões magníficas daquele tinir plácido. Meus olhos regozijam lágrimas ásperas, sinto nos ossos o declínio milimétrico daquela relação ruindo; mas só a mim, só a mim como todo desprazer pestanejante, como todas as ruínas espectrais fizeram-me vivo. Seus olhinhos alvejavam os meus claros verdes cinzentos, por horas inteiras submergia petrificado e desejava desfazer-me inteiro, derreter e deixar enfim a terra e os mundos futuros, manchar a tua pele e lá permanecer intacto até o fim dos dias. Mas deus não escutara, e fez aquela magistral história corroer-se silenciosamente em mim.

 O odioso meticuloso ato daquele genitor, qual tal enfeitiçado pela certeza inebriante das desgraças futuras antevê infernos detestáveis. A mim, tão minúsculo incauto atormentado pelas infinitas possibilidades dos ditos, desditos e simplórios porvires; a mim, vira só a chacina de um ego, vira que lhe traria desastres. Você não se importava com o maquinário ancestral dos sete infernos inaudíveis, dos ululantes processos quiméricos a todo instante rasantes nas minhas falas aleatórias; a ti nada daquilo era maldito, nada daquilo era odioso horripilante, a ti talvez fosse um estágio, uma fase do existir que logo cessaria e mudaria. A peste é aquilo que nos faz estáticos, aquilo que transfigura nossas faces e retendo o silêncio póstumo ao fim suporta e continua. A peste é lembrar que enfim estivera correta, estava certa, foi angelical e a mim o tempo trouxe consigo uma das dezenas facetas da morte. Todo lembrar do meu partir rompem traqueias quebram ossos, revejo atentamente todos os processos miúdos, gigantes, do seu crânio belíssimo estirado no meu colo enquanto todo o resto ardia violentamente em febre. Condenado estou a repetir o processo ao fim do existir, rememorar e arrastar os grilhões do meu ato funesto e rever sua face derreter na minha memória. Disse adeus ali como quem morre e não permiti retorno algum; e hoje sei, faria diferente fosse outro eu, estaria lá fosse algum outro capaz de entender fases e processos, diante das quimeras, das máscaras e toda a minha peculiar formação monstruosa.

 O tempo sei bem, formam-se tentáculos moribundos dentre outros altivos ferozes, chacoalham corpos dispostos ou fisgam desatentos e mostram horrores absolutos e ternuras colossais. O tempo é um maquinário degradante, sistemático e ruidoso, mas em sua raiz incerto, deplorável; requer atenção, requer certezas miraculosas como filosofias metafísicas celestiais. O tempo lá fora destrói rostos, faces avermelhadas encoleiradas. O tempo vem a mim entre lampejos, faróis distantes alto mar. Vejo a luz decadente daquele milênio distante, sinto medo e caio. O pai esteve certo, tirou-lhe da maior das dores possíveis entre os homens. Dor, tanta dor milimétrica produzindo sistemas novos recentes, alterando a faceta, a persona, o dia inteiro refeito. A dor daquilo que me fizera, daquilo feito ato de adeus como quem morre. Toda nova dor é um retorno a brevidade, a toda impermanência, o não querer estar o desejo puro de não estar e nem ser, enfim voltar ao nada.

 Os sinos tocam suas memórias indispostas, suas meticulosas imemoriais. Ouço atento e lamento de novo o meu partir. A lâmina corta deixa rastros cicatrizes breves. Não fora fundo o suficiente para tornar-se mais uma face. Ouço-lhe, tento enfim reviver seus estágios metafóricos e todo aquele amor milagroso, anterior às chacinas retumbantes quais vivi. Como todo aproximar me assusto e sentado estático evito que me vejam tão minúsculo e degradado. O nada místico que reverbera sobre mim um milênio inteiro de morbidez, de abismos infinitos. Queria ser uno como percebo nos outros. Queria não ter milhares faces, queria ser um.

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