MADRUGADA

17, FEVEREIRO, 2026.

MADRUGADA.

A madrugada inquieta percorria seus minutos vagarosos entrecortados. Via-lhe movimentar-se, desejando resquícios místicos daquela outra vez daquele outro tempo já desfeito. Seus olhinhos castanhos miúdos escorregavam súplicas delirantes alvejando meu olhar distante. Derretia estupefato pelo mormaço simbólico daquele estado simplório e químico. Aproximava-me desejoso esquivo dos outros afetos possíveis, minha quimera inteira lhe pertencia. Refeito ou feito por um instante só, meu pescoço arqueado donde meus lábios choramingavam em busca dos seus, ao toque desmanchei insistente na proposta do contato e a resposta vindoura; seu corpo inteiro tremeu perplexo pelo ato e cedeu noutro contato breve fantasmagórico, dos beijos vindouros e aquele primeiro estalido sofisticado perpetuado pelos afetos mirabolantes. Ainda cedo o porvir das sistemáticas alusões proféticas, alusões minimalistas gritantes dos ecos concomitantes às atitudes quaisquer. Eu encantado aludia-me aos antigos santos gregos, heróis e suas desventuras, lhe beijar trazia efeitos milimétricos sintéticos imagéticas figuras cinematográficas sensuais.

 Um poste nos alvejava sua cor disforme translúcida; meus olhos ardiam melodramáticos, os vozerios manifestados derretiam ao contato breve dos tímpanos clarificados. Os outros viravam enfim outras intangíveis equações pueris, ideias e imaginários quiméricos longínquos. Buscavam e traziam mais cerveja e aos poucos meu âmago inebriado solicitava tragos baforosos, cigarros azulados mentolados consigo trazendo lamúrias. Sua voz mais me era um canto breve, mastigava suas palavras lentamente e as engolia noutros beijos simplórios; manifestar aquele desejo transbordava sintomas distantes raros, métricas volumétricas e sistemáticas, tamanho era feito aquele encontro dos lábios.

 No carro a ir pra outro lugar, outro sistema solar outras nuvens cinzentas. Da janela mirava transeuntes e os amordaçava, suas caricaturas misturavam-se desperdícios linguísticos inaudíveis. Minha face moribunda enfeitiçada pelos quilômetros d’álcool, pouco a pouco balançava meu crânio entre gracejos metafísicos impostos pelo rememorar daquela memória ainda pulsante viva. Ao outro, a ela, em si nada gesticulava ou propusera tamanho impacto divino, era-lhe uma madrugada como noutras, onde o álcool transfigurava os resquícios supostamente mágicos, mas que eram desfeitos no contato póstumo breve daquele qualquer instante. Minha voz tentacular misturava gestos obscenos e cautos, degolava e cortava outras histórias sintomáticas e enfim calava, cessado pelo movimento cáustico dos beijos impostos. Há silêncios oriundos das chagas, das bravuras indômitas e colossais; há noutros simpáticos gracejos donde um está ao toque magistral milagroso e pro outro é só mais uma madrugada.

 A cerveja viera mas ao gosto suscetível das linguagens recentes trouxe à língua campari. Um atras d’outro e ela derramava cerveja fazendo um coquetel misterioso avermelhado. Cada novo gracejo trazia consigo lampejos sonâmbulos, silêncios ancestrais. As músicas socavam os ouvidos em uma parte fustigada por luzes mórbidas penumbras; no outro canto uma estática calmaria pairava, esmagada por cantorias substituídas pelo tempo. A nós viera uma que cantaria, música francesa desconhecida, mas naquele estado divinizante imposto pelos raríssimos instantes dionisíacos, álcool elixir para maldições. A cantoria durou o virar de alguns goles, os passos ligeiros dela naquele ápice sentimental já se desfaziam, Dionisio escorregadio e lamentoso propusera outros goles, mais coquetéis sangrentos e a disposição para o fim. Meu âmago detestava o tétrico porvir, manuseado cauteloso pelos seus dedinhos belíssimos; a flecha esbranquiçada brilhosa de Apolo acertara meu coração inquieto e sua notícia mortificante, que todos aqueles instantes estavam para derreter na minha memória soluçante. Aceitei sequioso enquanto assistia, seu corpo estatelado no chão da calçada. Os postes jorravam lágrimas caleidoscópicas, meu corpo jazia quieto submerso em mais um fim.

 O retorno como noutros indizíveis, lancinantes, miraculosos; retornos tais quais odes mágicas às santas afogadas. Rios beijando beiradas em suas ondinhas finalizadas. Terminante e ecoante é feito algum dia e seus gestos arfantes rasgam têmporas impondo memórias suplicantes imperecíveis. Questionar alguém tal qual sacrilégio herético, questionar aquela qual dispôs de sua fisicalidade para a transformação quimérica de um dia ordinário. Certo é o silêncio e perpétuo imaginário. Dos amanhãs reticentes, dos amanhãs decadentes és feito para humanos como este; lamúrias deletérias e sopros belicosos soterrados, esquecidos. Dos gritos odiosos longínquos, das metáforas infernais no corpo vivo nada em ato se transforma, tudo evapora cautelosamente nas curvas deste labirinto. Amanhã sobrecarregado das artimanhas ancestrais, diabretes cuidadosos impulsionando imagens abissais para sua madrugada solitária. E desperto para outro ir e vir, desgraçado o porvir.

2.

A arma descansa seus desejos, propõe suficientes silêncios eternizados, mostra cenários vis, sistemáticas práticas infernais.

 A arma deseja e dos seus impulsos ouve-se torpor e medo.

 A arma deve permanecer incessante, deplorável e esmagada.

 A arma está aí, aqui e lá.

 Ouço meu crânio, os cacos dos ossos.

 Meus átimos, respirações intercaladas.

 Habita em mim uma arma.

 Afasto seus ecos, não nos apresente de novo.

 Lá ardia aquele último sol, a brincadeira era feita, tiros mirados e um torpe feche de luz clarificado.

 Deixe a arma lá, esquecida, longe e solitária.

 Há na morte o silêncio desejado, a paz qualificada, nunca revisitada mas enfim permanente.

 Não voltaria tal qual eu, e nisto mora minha desgraça e ruína.

 Volto àquele dia e rompo minhas traqueias,

 Soluçante permaneço mirando aquela tragédia anunciada.

 Se deixasse de me ser para voltar e ter-lhe,

 Não a teria nunca.

 A arma e o seu eco sombrio permeiam meus labirintos,

 Mas na morte talvez não me seja, não me sendo talvez nisso habite o inferno.

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