EXISTA.

EXISTA.

14, ABRIL, 2026.

 Lembrar como existiu em tal hora daquele instante inebriante. Soluçar entre lapsos inconstantes germinando saídas colossais. Linguagens opacas, palavras ordinárias, condutores inescrupulosos. O ser aí que lhe habita, habitava, habitará; incapaz da mesmice, dos gemidos. Todos os dias nascem cósmicos, diferenciáveis. Resistir uma proeza mágica, continuar. O cigarro tremeluzia ofuscando o dia passageiro lento, esmagando as premissas anteriores; tragava devagar e ao contato mínimo, regozijava. Fumar um hábito mórbido adentrando sua escuridão; tagarelando de si a si sobre lá longe onde fora, estivera. Voltar é-lhe impossível hoje, amanhã pior ainda; então permanece estático martelando maldições indigestas, versos torpes. Flutuar através do tempo, dos locais, das vozes oriundas dos massacres diários, toda notícia um trágico levitar e afundar, incapaz do distanciamento prático, da linguagem simétrica; tudo lhe é, fora, será chacina guilhotina.

 Jaz inerte pela razão antiga, jaz aí inacabado pelo progresso fecundo das mortíferas vontades. Tudo que lhe é, tudo que queria escapa feito água atravessando os dedos miúdos. Seus olhos claros distanciam todo progresso audível, visível, seus trejeitos cadavéricos produziram lacunas, aberturas desastrosas. Soluçando pede desculpas, desiste; soluçando cai mais uma vez, atordoado pelo desastre desta nova unção. Diabretes coabitam-lhe desde a tenra infância distante, lapidada pelos corredores infinitos entre curvas lamentáveis; seus gestos ardiam, sua voz falhava então caía nos vórtices decadentes do horror e medo simples, vulgar, sem ter a quem dizer ou gritar. Girava amordaçado pela surdina diabólica do silêncio induzido; a quem denunciar tamanho medo?

 Você prometera rudemente não ir, prometera permanência, razões inteiras de estadia sem colapsar. E toda queda viria a ser experiência, lamentar um processo, existir no coágulo místico do labor, deste nosso amor tenro e belo. Miserável há de ser o partir, decapitar. Todo início a ti mais parece ruína, o passar e aprender uma desgraça execrável. Não lhe ensinaram nada na juventude, na infância melódica? Quem és tão vil e frágil, tão sistemático e sábio em dizer aquilo que quero ouvir, aquilo que todos querem saber. Onde aprendera a ser opaco, irascível somente a sós? Quem viria de lá onde os tambores anunciam novos infernos, fecundados diabretes novatos, luas e sóis novos? Deixaram-lhe lá a sós, mordido pelas chagas introspectivas e da sua velhice não há de nascer nada. O nascido daquele odioso resplandecente olhar vem a cair, arruinar-se, pois teve seu lapso nascente aí onde arde e se apaga.

 A ponte é breve, um rio afoga lamúrias por debaixo. Saltam, nadam, resistem. Ir até lá e ver, assistir experiências inteiras sobrecarregarem seus dedinhos cáusticos; lembrar inconsciente dos estados, das vivências longínquas como condenação fértil repetida. As veias repetem processos lamentosos de ponta a ponta, escaldando notícias boas, rasgando artérias e deixando sangrar até um desmaio ligeiro. Vão lhe ouvir, devem ouvir, até que parte deste estágio não lhe é merecido, incurável. Inefável são os processos letárgicos, palavras aturdidas mirabolantes pungentes, ocupando espaços milimétricos nas suas retinas, nublando seu olhar quimérico; o céu raquítico finda mais um dia lapidado entre curvas das nuvens cinzentas, pulsando uma tempestade rara.Ela está lá, estaria, esboça uma reação cômica alegre, lhe envolve afetuoso abraço e diz algo que reverbera, tremeluze, mas permanece intangível, ficou-lhe somente a pura sensação.

 A você então, a você aí. Quais faces brindariam com altivez, com renúncia, com calma. Quais místicas seriam pisoteadas, esmagadas até esvanecerem. Seu rosto hoje difere clinicamente daquele anterior, daquele semblante mequetrefe laborioso cheio de existências, continuidades; hoje reflete ópio, mormaço, nudez, plasticidade e chacina. Hoje quem lhe ver, odiará. Quem lhe tocar sentirá asco. Asco breve e explícito. Nada faz com que pause, descontinue, nada reverbera poder suficiente para silenciá-lo, diz de si a si todo o colapso fascinante daquilo urgente, cálido, santificado, infernal, ululante, ainda que diga somente a si; seu existir rotulado, milimetricamente observado é de alguém putridamente só. Existe e dos rostos contínuos esplêndidos, reticentes, inverossímeis, tenta inutilmente controlar. Controle lhe soa divino, algo merecido somente a algum santo. De santo sua existência possui o corpo, que é perceptível que todo aquele santo tivera um; afastado do físico, deseja genuinamente esvanecer, diluir, dissolver em algo, alguém e não ser mais existente.

 Ecos das linguagens sintomáticas. Dos prenúncios profissionais mentais. Comprimidos atordoam, manuseiam calmamente aquilo nefasto. Os dias se tornam mais ordinários. A vida uma constante plácida permanência. Esteja, exista.

2.

 Eu acordei hoje assim como ontem, repeti um processo pequenino, senti orgulho
Descansei o rosto ensopado na desordem pura, descansei do colapso,
Outro dia nasceria então, outra vontade pulsaria;
Seu olhar rasgava minha fronte,
Meu âmago ardia;

Todos os instantes são escassos, metálicos e rudes,
Meus olhos serpenteiam por suas curvas,
Permaneço estático amordaçado pelo último contato
Descalço corri até lá, deitei-me, esperei que viesse;
Não veio, não quisera;

Dos diabos aos céus opacos, nuvens pálidas,
A guilhotina que quis, a guilhotina inexistira a mim,
Mortificado pela ausência, mais quis ser desfeito
Apagado e ausente daquele estágio,
Do funesto porvir, do seu não estar;

Escutava os tiros, os gritos, os colapsos
Desistia ao nascer, desistia ao sentir
Aquilo tangia-me, mutilava;
Respirava aliviado a todo instante acordado
Deturpado, degolado;

Há ainda escape, saída visível,
Há ainda desejo, sutileza
Há ainda vislumbres possíveis,
Há lá corpo e espírito que não ceda,
Que não padeça, calidamente sobreviva?

Viria dizer,
Viria ser,
Entre tanto,
Tudo aquilo,
Manifesto nada.

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