RUÍDO
02, SETEMBRO, 2026.
Acostuma-te ao lugar qual reside, ao inevitável fato da mesmice. Conselhos ardem sua pele exposta, comovem e movem aos tropeços de uma nova queda idêntica. Sua voz escorrega pela fresta dos lábios, desce devagar e saboreia o estonteante fato desta sensação, o torpor causado pela fala. Há horror no dito, no prometido, no comovido, no acontecido; há horror entre os lapsos eternos das condições quaisquer. Voltar não lhe fora permitido, depois que partiu ouviu retumbantes calorosas formas apoteóticas, dando-lhe razão e continuidade, noutras cidades e lugares, jamais de volta a casa. Peregrinar feito eremita, não existir estático em canto algum e amar até rasgar. Seu âmago cáustico assolado, seu trejeito mundano incauto, sua forma repetida de dizer com a certeza colossal sobre a morte daquilo que tanto amou. Olhos claros calmos, voz trepidante ociosa, pouco diz daquilo que sente, como se todos os átimos refizessem coordenadas reticentes e incongruentes levando a lugar algum. A casa fora-lhe arrancada do espírito, de lá ouve histórias, de lá precisa continuamente esquecer.
As luzes tremeluziam, as sombras chicoteavam formas próprias dubitáveis. Fantasmas amenos conduziam conversas triviais naquele silêncio miúdo que outrora fora infernal. Há escape distante, naquela próxima volta antes daquela última curva; o poste inundava o caminho, seus olhinhos calmos ardiam pelo esforço insolente. Transitar pelo afeto claro e nítido, envolto, absorto e transtornado; sua voz chicoteava lampejos místicos, enquanto era observado por ela através de suas lentes opacas. Havia um barulho odioso lá onde habitava, não lhe queriam mais e sequer desejariam no fim da sua vida; havia uma comoção arbitrária, lapidada e transformada, todos bebericavam daquele torpor malogrado, daquela desfeita decrépita; não lhe queriam ali, jamais quereriam. O cigarro gesticulava pela brasa e da fumaça metrificada formando símbolos profanos, não fumaria perto dela ou com ela em momento algum. Seus desejos moribundos eram letargias plásticas, viriam depois, como guilhotinas nefastas decepando-o diariamente através das memórias colossais.
Afeto nenhum, saída nenhuma, encontro algum. Lá diziam desde o primeiro milimétrico instante, sobre a morte, sobre seus efeitos e a ruína que lhe seria caso partissem antes ou já. Atônito observava aqueles dizeres apocalípticos com horror, chacoalhando ossos e conduzindo músculos para outro ambiente; donde rompia a traqueia, amordaçado sentia-se castrado. E se não houvesse formas de reproduzir, nascerem de si e outro alguém, um filho qualquer ou específico, mítico. Incongruente o fato lhe atormentava, pouco a pouco era açoitado por uma premissa irascível da continuidade genética, do outro que nasceria de si. Pelo torpor ululante que fora projetar tão cedo a morte dos pais. Meticulosamente redundou em e se eu não procriar, não tiver como. Não fez nada para testemunhar se há ou não a possibilidade, a existência segue magistralmente construindo caminhos inverossímeis, personagens germinados por maldições distantes. Onde habita, onde está, lá corrói o dia e a vida.
A pistola descansa sua calmaria esbranquiçada, prata e comovente. Não há no que atirar, não há nada que a requisite, mas lá está transcendental como um maquinário quimérico inevitável, um porvir necessário à sua miúda existência. Atirou várias vezes nos objetos inanimados, robustos, factíveis e dilacerados. Ao som e o ricocheteio, a pólvora. Aquele ruído permaneceria por outras doze existências, chorar, gritar, nada faria esquecer os detalhes minuciosos, dos corpos estirados, dos objetos estourados. Até onde ir e permanecer, até onde ir para voltar enfim e largar, admitir entre gracejos dantescos, a causa odiosa que fora pertencer àquilo que rouba vidas.
Não há palavra melhor, nem trecho permitido a ti. Não há requinte, metáfora, tropeço que faça do seu existir algo puro. Sua busca maldita pelo mágico, pelo inenarrável, trouxe consigo mortificantes detalhes. Hoje como ontem e amanhã sua memória trará as mesmas quedas, as mesmas ideias. Modificando enfim somente a dor que causará, para eternizar sua melancolia. Lembrará daquele último dia em que tão triste esteve, rolou e deitou amordaçado, mutilado e permaneceu por meros cinco minutos, nem a pura desgraça lhe é permitida. Nada lhe será contínuo até um fim, nascerá infinitas vezes e não chegará a lugar algum.
Voltar ao primeiro instante. Rememorar espancado pelos detalhes robustos assimétricos. Diabretes inescrupulosos dando mordidelas na última parte. As luzes enfim apagadas, o breu opaco lancinante. Dormir fora promessa divina impossível, não há milagre nesta sua primeira existência; não há saída de si. Então pequenino entre lapsos irascíveis, germinando prognósticos evitáveis, permanece amaldiçoado e estático. Ouve vozes mequetrefes populosas, vozes belíssimas rarefeitas, ouve tudo atento e arranca um pedaço da pele. Ouve a calmaria daquele outro, ouve tudo reticente, malogrado pelo efeito. Há tanta existência lá fora, lá onde habitam os vivos. Suas repetições decrépitas, dos abismos inefáveis, o divino recusou-lhe a existência ordinária. Não há eternidade e nem silêncio, só um ruído maldito contínuo inefável.