SOBRE NÃO SERVIR PARA NADA, 2.

22, JUNHO, 2026.

SOBRE NÃO SERVIR PARA NADA, 2.

1.

  O suspiro breve diante do interminável detalhe. Dos sussurros ininterruptos da vida mundana, letárgica, inescrupulosa. Há existência possível, há futuro, devir; tudo está lançado e pode sentir nas veias o passo a passo meticuloso ancestral dos diabretes. Então desperte, lance-se ao detalhe e dê a si um prognóstico detestável à vida miserável decidida, quimeras infernais rasgam a fronte, deixam o espírito esvair-se. Dado lançado e repetido, seu olhar devora os outros e faz de si um pecado minúsculo; pudesse derreter teria, pudesse esvanecer faria de si inexistente. A vida uma dádiva, existir, ser; mesmices, repetições deploráveis. Os outros lá fora vibram suas conquistas, arremessam-lhe longe e pode decair. A decadência sutil de uma existência sincera, robusta, simplória. As armas reverberam versos antipáticos, inumanos, suas vozes oscilam entre sonhos tétricos ao sublime, há na raiz uma dúvida ruidosa; a arma daria enfim saída a este existir detalhado, horrível.

 Volte se der, volte quando possível. Às músicas, aos detalhes, volte ao início. Veja de perto a chama nascer e arder, dando voltas na carcaça recém nascida, no pueril ápice do nascimento. Ver e sentir os que lhe trouxeram a vida, lhe deram esta dádiva mágica infernal. Seus olhos miúdos e claros devoram o ato, não compreende e faz dos primeiros passos uma chacina. Intelecto, razão, convolutos desprezíveis inertes detalhes masoquistas, suas vozes vão arder-lhe, doer, até que parem enfim. Não há saída a ti, criatura odiosa, não há escape nem previsões. Ouça-o explodir seus tímpanos, com histórias risórias às suas capacidades. Dependência silenciosa, milimétricos passos de volta a casa; a mesma, o mesmo, quem quer-lhe assim então? Quem ousaria tirar-lhe daí, vê-lo existir fora da carcaça, da carapaça horripilante.

                                                                           2.

 Eu sei do limite estático deste porvir detalhado, deste prognóstico inevitável; está tudo cá orbitando minhas pupilas, meus olhos não veem outra cousa. Sua voz é detestável, seu termo maldito, desejo não ouvir mais; desejo desfazer-me de fato, até o último instante. Exausto estou das mesmices, da sua incapacidade em compreender-me ou sequer tentar ver-me por outra ótica. A doença germina diferencias exorbitantes, toda a decadência da vida, todas as quedas reverberam mesmices aleatórias. Há diabos e demônios naquilo que vibra. Devo ser tudo, devo ser a diferença heroica; trajar as vestes esquecidas, equipar-me dos suspiros exorbitantes, dos anteriores, dos já caídos. Mas a mim o inferno é rotina.

 A forma ocupava-se de disparates, lançados para todos os lados, uma bola enorme ardia enegrecida pelo breu da madrugada e dos seus lados tentáculos nasciam contínuos e manchavam todo o cômodo. Observava atento sua disformia dando vida a cáusticas formas, meu corpinho miúdo chorava. Caía da cama, acertava o piso empoeirado, tapava os olhos com força. Um ruído atônito rugia naquele inóspito silêncio. Minhas vistas turvas dos dedos que pressionavam tentando afastar os tentáculos que rastejavam pelo quarto. Abria enfim as vistas, a escuridão resplandecia opaca, acostumado já não via mais tentáculo algum.

 Eles brincavam lá fora, germinando histórias absurdas. Seus toques na bola de cá pra lá, até que me convidaram. Fui tímido, acertei alguns toques e ri de algumas piadas; meu rosto estava quieto ali, não transfigurara. Era cedo para promessas, mas guardava aquilo como memória mágica. A lua mordiscava as frestas das nuvens, um nublado vagaroso se desfazia. Ernesto brindava-me um copo d’água entrecortadas histórias desciam pela língua, suas bochechas gorduchas rosadas. Ernesto brincava com um castelo cheio de outros bonecos e formas, narrava histórias inventadas. Aprendi ali o primeiro toque da invenção. Do inventado e ordinário.

 Mudar, deixar de ser. Está inevitavelmente adoecido. Cada tentáculo arrancava-me dos braços alheios, moldava formas diferentes; nada repetia-se. O silêncio soluçava sua miséria a mim. A miserável forma odiosa daquilo que é inútil, daquilo que não serve para nada. Da labuta constante entre ser e nada, dos pontiagudos mirabolantes cacos de vidro quais piso por ser aquilo que deve. Os remédios que transfiguram, mas não cessam. Há doses maiores, há combinações intermináveis, mas o execrável é o mesmo, sou eu.

 Não há esquecimento possível. O adoecido progresso dantesco, sem Virgílio algum para ajudar. Esquecer traria saudade daquilo desfeito momentaneamente fisgado pelo progresso rudimentar das memórias; o que era? o que deveria saber? E o riso cáustico ante o fantasmagórico, amedrontador. Tentar lembrar a cidade, a face, os lábios, os olhos. Há esquecimento possível, só não há certeza, sequer mínimo controle; o tempo e a memória desfazem-se como querem, até onde podem e devem, pois são. São aquilo que esvanece, entorpece tanto o que se lembra quanto o que não. Morte a mim, um trajeto cinzento moldado pelos princípios ativos desta face minha.

3.

 A inutilidade é um progresso milenar
As facetas, o gigantesco choro imaculado do meu primeiro contato
Com a existência qualquer, com o trejeito alheio, com o pulsar
Magnífico da existência pura, infinita;

Chorar brindava-me, chorar me era ser absoluto;
Até quando não pude mais, quando necessitava
Pedir ao Caronte passagem, suplicar ajoelhado por uma ida,
Ao mar dos espíritos, de todas as faces, das almas caídas;

Permanecer intacto por uma vida inteira,
Permanecer estável por um milênio,
Permanecer meticuloso progresso por uma década,
Permanecer vivo por mais um dia,

O desejo é alheio e turvo, o desejo é inóspito,
Como uma casa que cai no oceano,
Meus detalhes obscurecem, a queda é vertiginosa,
Palavras nascem alheias, oriundas d’algum massacre anterior;

A curva daquela última rua, aquele brilho amarelado que lambia
As calçadas pintadas, árvores intercalando sombras
O vozerio inevitável de mais um dia, mais uma vida pulsante,
Crianças entre odes do puro desespero,

Esqueciam ao ápice do contato,
A dor como feridas físicas plásticas,
Desenhadas por divindades fracassadas,
E ao ato da relembrança não se formava nada;

A mágica contida no esquecer letárgico do infante,
Da infância que causa e rompe, molda o futuro, todo devir;
Meu choro, o seu choro, nossa lágrima maldita nascida no bojo
De uma distância idêntica, mas diametralmente oposta;

As vidas tocam-se incessantemente, transformam,
Mas os auges empíricos desta maldição carregada são nascidos lá,
No alheamento do existir, do descuido, do abuso,
Esquecer já é a ruína indesejável,

Rememoro aquele medo demoníaco, daquele último corredor,
Quando caía, rasgava a testa e chorava por uma noite inteira,
Vocês viam, ouviam, sequer estendiam as mãos
E a chaga do sangue gotejando na cerâmica.

Ousar viver, ousar existir,
A quem pedir perdão
A quem pedir clemência,
O inabitável, o contagioso;

Sua história não é a minha,
Sua chaga é meu deleite,
Seu desespero minha saúde,
Seu olhar minha condenação;

Volte se der, mas traga outro choro
Diferencie se der, daquele último
O novo germinará saídas retumbantes,
O futuro mancharemos de nós dois.

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