15, MAIO, 2026.
JUCA E O TEMPO INFANTE.
Juca acendia o penúltimo cigarro. Lentamente dissolvia, cada trago afastava uma ruína minúscula, sentia culpa, desejo, raiva, rancor, e a chaga escaldante de estar vivo. Seus olhos claros umedeciam, as nuvens passavam devagar. Tremia pelo fato simples da decisão introspectiva, culpa pelo fato mórbido do deleite entre baforadas, mesmo quando permitia descer entre os lábios e escorregar até o pescoço. A saudade arruinava sua estadia, seus lampejos criativos pisoteados pela mesmice de rangeres aleatórios; vinham-lhe árduas, como catapultadas pro ar distante. Seu celular vibrava, as faces caóticas causavam-lhe torpor, mas não causavam ato, atitudes rasgavam frestas na sua traqueia. Estático estaria, está, permanece. Sua voz enfim persistente, mas a quem ir, quem buscar, quem lhe traria ou levaria para fora de si. Tudo está repetido, tudo fora dito. Movimentava-se de canto a canto daquele mesmo recinto, trovejava sentimentos plásticos enquanto admirava a decadência simplista, ordinário fato daquele que desiste. O arrependimento feito uma desgraça tentacular minando prognósticos possíveis, a ruína.
O eco odioso da permanência. A arma descansava sua completude. Juca caminhava articulando promessas esquecidas, futuros apáticos. Seus olhos ardiam lacrimejantes. As horas feito flechas caindo e alterando suas lógicas internas. A escada serpenteava até um topo mirante, luzes articulavam sombras rompantes. Cada passo inebriava. Cada passo rotineiro dos séculos inteiros póstumos, dos cortes graves inauditos malditos. Existir lhe é púrpura, enxofre. Seu interior cáustico, seu olhar tardio, tudo germina e escorre pelos vales moribundos. Sua infância uma distância perpétua, gritos árduos, ser e estar, permanecer. Da solidão crepitante borbulhante, ruídos tétricos compondo suas frestas, seus trejeitos, sua estadia. Mirava atento o som áspero de mais uma madrugada horrível. Alto altivo um homem ornamentava vestes longas, grudentas, seus dentes amarelados e voz retumbante convidava-o, Juca obedecia como dever mor, devesse. O corredor atordoado pelo breu, a luz intermitente das lâmpadas apagadas, um eco deslizava por entre os espaços miúdos das janelas e portas. Lá fora o frio ululante arrepiava, mas sua intenção permanecia intacta, o homem alto de chapéu redondo e olhos infinitos vazios, conduzia devagar. Juca podia sentir sombras atravessando seu corpo pequeno, sombras abrindo rasuras projetando ruminantes detalhes, a escuridão atordoava, mas não travava seus passinhos. As árvores chacoalhavam seus galhos esguios. A criatura derretia a pele da face, o vão opaco das órbitas oculares entregava aquele menino ao recanto sombrio do fim. Onde o tardar é degradante e eterno. Juca senta enfim próximo ao alçapão ouvindo o latejar de outros como ele, socos surdos no ferro endurecido e enferrujado. Podia ouvi-los convidando, promessas ululantes flutuavam pelas milimétricas partículas de oxigênio. Acostumado enfim àquela escuridão repetida, lambido pelos rarefeitos brilhos lunares, permanecia intacto. A criatura descansava suas costas largas na esquina do corredor. Juca desejava paz, sossego entre as lágrimas de mais uma noite.
O bar articulava oscilações delirantes através do abstrato afeto dos olhares. Juca decidira inebriar-se ao esquecimento áspero. Sozinho entrecortado pelo sintoma ruidoso deste ato, o ir e vir, devir; pedia a cerveja como se arrancasse um dente. Logo acenderia o primeiro cigarro sentimental. Ela ainda lhe abria afetos detestáveis, seu partir fora articulado e desgraçado, degradante. Não ousou tentar fazê-la ficar ou sequer lembrar do que fora dito. Memorizava sintomas, reações, causas e efeitos, mas as vozes dilaceravam sua objetividade prática. A noite brindava horizontes calmos, o tráfego simétrico das idas e vindas, sentado ante ela, diante daquele póstumo fim; seus olhos castanhos claros e a pele feito leite transcendiam o espaço e tempo, choravam um ao outro; o fim daquele estágio elementar, daquele futuro plácido detalhado. Juca voltara a si, a fumaça descia entre os lábios, seus olhos chorosos amaldiçoavam aquele ato longínquo e já tão soterrado no tempo ato, o ir, do devir dos tétricos arrependimentos. Seus olhos estavam opacos incolores, a nitidez daquele espelho apodrecido depois de urinar pela primeira vez, das centenas vindouras; por um segundo milimétrico pôde romper o espaço e se desfazer inteiro naquele reflexo fugidio, sua alma enfim colapsada e liberta da carcaça deplorável, do corpo, do receptáculo. Mas despertara, alguém bateu na porta e perguntou se demoraria ainda. Sentado novamente entre cigarros e copos.
– Posso jurar que já disse isso mil vezes. – Dizia Juca entre lapsos oculares, tapas simples na mesa. – Você voltou, sinto alegria nisso. Não desejava outra coisa. Eh, eh. Lá longe eu posso jurar que voltaria, pediria perdão pelo fato, pelo detalhe, pela causa, pelo efeito. Pediria perdão por tudo, foi como vim ao mundo. – Dismas escutava atento entre bebericadas de cerveja, tragos lentos no seu cigarro azulado. – Sei que não foi a você, muito menos a mim, mas a ela. A forma como sentia o tempo passar e detalhar na minha pele com navalhas todos os prognósticos possíveis. Não aguentava mais uma semana sequer naquele colapso, naquela relação. Mas ainda assim hoje, depois de mais de década, estupefato estou e voltaria se pudesse. Tudo seria azul, eh, eh. Como se a vida fosse a mesma na morte, morrer nada mais seria voltar ao início, com vislumbres da permanência da repetição. – A tosse veio forte, junto da lágrima escaldante. – Ainda a vejo, não intencionalmente, intencionalmente não faço nada.
– Aí que mora a decadência da sua permanência. Posso fazer pouco pelo que já foi. O que foi sequer remete-me, sequer causa torpor. Venho a ti sempre, pelo semblante quimérico das suas exposições. Hoje, como noutra noite lhe sinto esvanecendo. – Suas pausas eram intercaladas pelo efeito ébrio das palavras, como que arquitetadas. – Tenho medo que o tempo faça com que esse esvanecer ligeiro, plástico, se torne demais e enfim não lhe tenha mais na terra. – As doses chegavam no término da última frase. – Ah, ah. Só a ti brindo uma dose, como se esta tivesse vindo dos escaldantes infernos.
– Ah, ah. Não acho que a morte venha a mim, sequer me visite. Arrgh, a deus esta primeira dose. Aos deuses, peço desculpas, por hoje esta é a última. – Socando duas vezes a mesa, esboçando uma careta desfigurante. Dando tapas ternos na testa esbranquiçada do Dismas. – A ti devo o mundo. Seu mundo distante crepita formas delirantes. Formas dos infernos apáticos, cáusticos, simbólicos. Sua existência a mim é etérea, cósmica. Amo-lhe por vir, por razões que escapam meu desejo. Sua vinda é o símbolo mágico do afeto puro. Seus atos são sempre puros. – Entre soluços sísmicos, caretas eternizadas.
– O horror que brinda o inexistir, Juca, é detestável. A vida existe, permite continuidade, persista. O tempo como aquele horizonte inefável, ruas contínuas, curvas, cidades inteiras. No meu ramo, extingui gente; senti em cada esvanecer sistemático, um ruido cósmico inevitável. Senti culpa e medo. Mas permaneci, não como se trouxesse justiça. Mas que no ato, do tiro, do eco surdo dos últimos suspiros. Não senti nada. – Dismas gesticulava, franzindo o cenho firme, seu olhar petrificava os instantes seguintes, a rua, o bar diluído. – O capital giratório, as demandas. Juca, tenho medo por você.
– Eu tenho o mesmo medo. Ah, ah. Longo medo. Como se minha vileza tivesse germinado um horizonte distópico, oposto ao seu, até mesmo o meu de três minutos atrás. Como se criar fosse atributo imaculado, mártir desgastante, àqueles possíveis; não a mim, criar não veio a mim. Talvez no futuro de uma ilusão, talvez no cosmos exista um outro eu capaz de criar. A chaga oriunda do massacre dos egos, do meu ego. Tenho lamentações odiosas, nenhuma criativa. – Por um instante pudera jurar ter visto-a, trajando o mesmo vestido de uma das últimas vezes que vira-a. Por um instante hesitou, extinguindo-a com o olhar. Mas fora miragem. – Como agora, juraria tê-la visto. Mas como as quimeras degradantes do meu sistema nervoso, fora lapso de julgamento. Memória arremessada de um precipício e alcançando o mesmo piso fétido do meu crânio.
– Eh, eh. O tempo fez-te germe, bactéria. Criou rompantes magistrais, mas intercalados, inalcançáveis. Seus olhos devoram o mundo na mesma medida que se devora. Tudo já nasce decadente a ti. Seus atos criativos são como gritos. – Dizia Lúcia que chegara há pouco, escutando um tanto das mesmices repetidas do Juca. – Talvez a saída simples seja gritar até o último lapso. Deixar fluir até esgotar. Sem calma, sem pressa. Só sendo. Sei como parece fácil dizendo, né, mostrando o possível diante do incrível, da maldição que parece ser sua existência.
O berro da coisa como um entardecer simplório. Arrastava consigo entre passinhos miúdos. Depois da vileza mórbida, dos detalhes desgraçados. Das vozes que o convidavam para a queda livre, sem fim. O abismo um espiral incolor. Olhou pra trás desolado pelo eco surdo ruidoso da criatura sem olhos, os vãos opacos do crânio; mirou a pia, as plantinhas e flores. O abismo ficava em frente, distante a cada passo. Virou o corredor ainda atordoado pelo sombrio ululante grito de aviso fim de noite, da coisa. Entregava-o à porta da cozinha, o sol iniciava seus gestos, a madrugada distanciando-se devagar. As escadarias, as salas, a última porta, o quarto. Enfim, dormir. Até despertar de novo. Para outro comovente inferno introspectivo.
2.
Vem a mim, lampejo cáustico;
Germina a mim as saídas introspectivas
Dos processos letárgicos, da distância
Dos dias;
Suspira alegre enfim, o trejeito,
O deleite quimérico desta decisão;
Do barulho repetido,
Dos sistemas rompidos;
Sua infância calculada, milimétrica
Detestável, do primeiro ao último instante
A solidão que transfigurava, rasgava;
O breu inquieto de ser só.
Só como caído, repugnante;
Deplorável sistemático
Desperta lástima, repete o trajeto;
Da sombria tempestade de uma vida inteira.
Os burburinhos místicos,
Dela, qual permaneceu para causar horror,
Miraculosa, ela, para transformar a vida futura
Um eterno desespero.
A vida modificou os passos, o sistema,
Ganhastes experiências diferentes,
Cósmicas misérias tentaculares,
A quimera na sua nuca;
Brinde o retorno, a desculpa esfarrapada
Daqueles que miravam-no decadente,
Entre choros soluçantes a sós,
Despido, infinito;
Colapsar fora saída,
Feito anestesia indigesta,
Dormir transfigurava sua vida,
Mas sequer isso conseguia;
Então volte,
Mas por um instante só,
Desmoronar novamente,
Como se só assim fosse possível existir.
Ao filho invisível,
Ao suspiro inevitável
O inefável detalhe,
A ti, sempre ser só.