VIVER.

02, NOVEMBRO, 2026.

VIVER.

O ápice desta conduta, deste trejeito. Lapsos ruidosos arruínam sua carne, os ouvidos ardem. Há espaço entre vértebras colossais e o abismo que lhe percorre decadente. Distante grita a criatura minúscula, regozija alcances milimétricos, vozes entrecortadas. Está de pé ante seu reflexo moribundo, fajuto, pisca duas três vezes até que nota e aceita, há semelhança naquilo visto, é-se. Sendo rejeita o mormaço opaco daquele último abraço, rejeita resistente, encouraçado, ríspido e dramático; se percebe, percebido vai até lá, a primeira curva nefasta e então outras duas rompem. Sua traqueia está arruinada, sua voz escorregadia luminosa escaldante, através dos pontos impostos pelos mesmos entes, as entidades exaustas lapidam o mármore plácido da sua queda livre, morte inútil. Desejos repelem-se, desejos amorfos; há vontade gigante de não ser, de inexistir, de não ter vindo; ter estado lá inerte, abissal, disforme, contínuo e inalcançável pelas palavras quaisquer, míticas ou místicas.

Há forma possível no ambiente letárgico, na estadia mesclada entre nada e ser. Vozes rasgam o silêncio simples, esmagam o reticente espaço entre a agonia e o lampejo alegre. Ele ali permanece, deita e revira lágrimas odiosas, seu trejeito quimérico. Pôde notar que iria e não voltaria, percebera cascudo casmurro, deixou ir. Há forma nas amorfas desgraças. Se tivessem visto, percebido; então a chaga cessaria, mas não há escape ou praxe suficiente, caído permanece. Repetições translúcidas, mortificantes; pôde nota-la decidir partir, decidir deixa-lo lá onde tudo era torpe e vil, nada fez, sequer tentou. Sua ida vil, vileza ululante, totalmente cauta e inefável; raridade cósmica seria se ficasse. Então degolado pedira guilhotina, que sua cabeça escorregasse pela cerâmica até uma das diagonais, e lá pudesse ver a própria decomposição. Mas fecharam seus olhos, uma eternidade escura sem penumbra alguma.

Luzes amareladas, burburinhos, lamúrias. Alegrias delirantes arranhavam lábios alheios. A mesa arrodeada por crânios distintos, cada um em transe lateral, lateralidades robustas simétricas. Repetições negadas de nascerem, há ali um que as deplora, detesta; o tétrico artefato retumbante daquilo repetido, daquilo que ousa permanecer e voltar. Voltar somente do defunto, do corpo jazido inebriado pelas metáforas simplórias da decomposição. Reunião memorável, seus olhos claros cintilantes abraçam e engolem os envoltos no seu toque. A língua germina detalhes metafísicos, retornos degradáveis. Ela surge das cinzas e a fumaça do penúltimo cigarro, surge e retira do estado catatônico aquele que ali sumira; ela possui esse infernal poder, de tirá-lo. Retornado ao corpo, tende a compor suposições e quimeras para não dizer o objetivo e prático; a quer como se existir necessitasse, obrigasse; e a sina mortificante, ela sabe.

A arma prateada ofuscava o ambiente calmo. Seus desejos ecoavam pelas diagonais opostas. A luz avermelhada sanguínea derramava-se pelo recinto. Há um torpor plausível moribundo nesta última locomoção, sua vida arremessando detalhes a cada milímetro; memórias pujantes inquietas, figuras sistemáticas ardendo incautas emoções miraculosas; a arma se afasta da testa, vê-los lá longe e possíveis, retorna-o ao existir, a vida. Viver para que o novo espaço agonizante refaça e da agonia metálica nasça outros sóis, outras chagas. As chagas como infernos delirantes, intransigentes, plausíveis; todo seu, assim como o não dito, o não sugerido, o não; um não maior que o próprio ser, um não retumbante mortificante, lancinante. O não que lhe dera existência e permanência, para jamais escapar do frio catatônico e nefasto, da sua ferida aberta.

Toda a sua crença é mítica, lembre disso quando for deitar. Permaneça ali nas delirantes ofuscações, nas repetições; seu corpo rejeita-lhe como um órgão apodrecido. As apoteoses vão pouco a pouco criando lamúrias incontestáveis e de cada uma, seu lugar permanece inalcançável e maldito. Estica seus bracinhos pequeninos até lá onde ela habita, onde ela está. E vai, mesmo que cego, mesmo que inebriado, vai e vá. Não resista ao tentáculo oráculo daqueles olhos escuros. Volte gritando e lá decaía pela milésima vez. Desejar é uma condenação eterna, todo desejo é uma condenação do sujeito e você está perdido. Eternizado na falta.

Dos infernos, dos sete cantos, das sete vezes. Voltar. Seu desejo ali estava, abismo incurável. Havia um tremor dos dedos, das pernas contínuo; sem exceções quaisquer, sem pausa alguma. O dia rasga sua fronte, sua testa, seus olhos. Os lábios cortados. O mundo ruía lentamente, voltar ao início. As palavras escapavam violentamente. Tiraram-lhe a vida. Restou algo, como aquilo que existe inefável; seus retornos feito ressureições. Quantas existências ainda lhe restavam. Quanto ainda resta da mesmice, daquilo que ojeriza redizer, remontar, repetir. Ele assim como o imortal reconhece a incurável doença do viver.

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