ALMA

20, SETEMBRO, 2026.

ALMA.

Os lugares são os mesmos, a saída será a mesma, o encontro será o último. Passos largos, entrecortadas palavras sombrias; rompem um silêncio atônito. Há escape para este primeiro desespero escaldante, está ali na primeira saída, sem desculpas. Voltar entre lágrimas ásperas e dizer aquilo maldito, aquilo que lhe pertence e é sua razão de existir; lograr, amarrar semelhanças apoteóticas, quem lhe surgiria, quem viria a ser. Nada há nos espaços opacos das incertezas mórbidas, tentáculos movem-se pelo cômodo lambendo suas pernas expostas. Perder é a sina, conduta divinizante ao seu passado púrpura, pode sentir arder, estão lá amontoados empoeirados, seus planos macabros para prognósticos deletérios; há repetições diversas, lugares inacessíveis, dizeres milagrosos e uma certeza apodrecida. Sonhos feito desgraças retumbantes mostram-lhe, surge sua face esbranquiçada de lábios rosados, pode senti-la próxima a poucos milímetros de distância; pode esquivar se quiser, pode mudar se vier, pode deixar de ser o mesmo enfim rasgar o âmago e sair, desistir do tenebroso aspecto intermitente daquilo que não será.

 Sua voz escorregava pelos cantos do quarto, murmúrios, sussurros coagulados arrastando-se pela pele exposta. Rangia, ardia, mas lhe era infinito, rememorava com esplendor e desdizia entre misérias próprias atordoado por um pesadelo entorpecido. A razão lhe foge, distante aponta um novo milagre oposto. Há existência fora, lá fora existe uma alegria mágica ancestral repetida passada de lábio a lábio por mais de uma eternidade. Quem lhe fizera deste jeito com tais trejeitos e voz mequetrefe, passos lentos germinando desculpas ululantes. Quem ousara criar, criado está raquítico, simplório e antagônico, seus ditos malditos convergem quimeras e mitos, há ser demais em si, há espírito e santo, há todo um plano ancestral miraculoso e de si a si não requer nada além do silêncio. Seu desejo ulterior e fanático, um ser genuinamente etéreo, feito memórias ruminantes perplexas. Superar a guilhotina odiosa daquilo atribuído a ela.

 Asco e horror. Pode entender melhor desta forma, já que a antiga já não é mais; pode supor, transpassar, rememorar ardilosamente sobre a primeira tempestade hostil, sem senti-la. Existe um lugar distante e miúdo, dos dias repetidos em que permitia sequelas novas. O piso abre e um eco surge, o arrodeia, mãos enluvadas fantasmagóricas tangem a pele, causa um primeiro susto; pode ver na fenda aberta, há um espelho largo e alto, pode observar a diferença catatônica daquilo que é quando não quer ser; admira, soluça e um choro brota descuidado, lágrimas cítricas mancham as bochechas. Do espelho a coisa sai, outra a substitui e por um longo minuto várias faces daquela mesma face, lapsos feito ópio e torpor arranham seus olhos arregalados. Há uma centena de si, vários simulacros hipnóticos, seus desejos coagulam e transfiguram seu estado pasmo, em poucos instantes está radiante. A tormenta dura a madrugada inteira. A fenda não se fecha e o dia não nasce.

 Há no final deste corredor uma porta não numerada. Duas anteriores abertas, cama, guarda-roupas e cômodas, livros, cadeiras e mesas; as anteriores não lhe causam torpor ou horror, são lugares aproximáveis, encontrados por uma infinidade doutros. Mas a porta não numerada lhe causa medo, habitara aquele recinto há uma longa vida, conhecia metáforas, simplórias condutas e odiosas, conhecia quase tudo. Quando a forma disforme sombria, com seus dois metros de altura mesclada pela penumbrosa lua tímida, e rastros longínquos luminosos do poste, saltou e tentou devorá-lo. Saltou da cama, correu sem fechar porta e o corredor de poucos passos parecia eterno, o outro que findava e brindava a saída do apartamento também; atordoado caíra ajoelhado, sem rezas ou preces, só horror e asco. Ao voltar atravessando a neblina áspera vira entreaberta, pôde jurar horas depois que ouvira sussurros misturados e murmúrios letárgicos. Lugares quais habitam o nefasto abismo, invisível, indizível, milenar. Em um mero apartamento.

 Lâmpadas amareladas vomitavam suas luzes pálidas pelo recinto. Havia uma mulher ali, outras mais e diferentes, suas vozes melosas misturavam causando letargia. Observava-as açoitado por alguma promessa mística, um dever divino, rememorar cada rosto e cobrar diferenças, atitudes diversas a seu estado incrédulo. Depois, como maldição labutava atitudes diversas, sequelas opostas, rasgos sinfônicos e diferente do imaginário degradante, distante do disforme descontínuo traço daquilo ouvido de longe, a proximidade, a simples capacidade de tanger o mágico encontro primeiro, escapar à letargia, dos gracejos ao torpor da rejeição. Sua madrugada entorpecida pelo álcool, mordiscando cigarros e dizendo tanto sobre a eternidade quanto o nada. Ela chamava-o, a outra contornava-o, a última nitidamente atravessava-o com seus olhos castanhos escuro, vestido marcado, cabelo curto. Há toda uma existência sobre o abstrato afeto de um olhar qualquer.

 Saltar e cair. Vibrações cósmicas deixam rastros químicos, centímetros ruidosos das premissas celestiais. Cair, saltar. Pôde notar o esplendor da sua nova vida, sua eternidade convoluta, sombras amordaçadas. Cada curva surgia rompante, cada novo espaço tempo um colossal divã e ao deitar caía no mais novo lapso. Lhe puxavam e diziam degradações humanas, mentiam sobre as saídas e o repetir monótono da queda, da tragédia vaga desta prisão cíclica. Voltar e dizer, voltar uma tentativa decadente daquele mesmo estágio mental, mesma sensação pura; um destino melancólico idêntico, como o sabor ameno tranquilo da tristeza, deitar, o divã plácido. Há um frio robusto quimérico composto pela angústia, o incerto caminho; vivia por ele, através dele surgia rasgado, com os tímpanos danificados. A súplica térmica desta nova forma mitigante, escaldante, movendo-se de lado a lado encontrando o mesmo detalhe gigante, desta repetição nefasta. Aquilo que é reverberava atormentando-o continuamente.

 A criança lá, alguns anos de distância. Decaída, murmurando soluços tétricos. Seu desejo ruminava e escaldava ouvintes atentos. Seu dormitar intermitente, cheio de crenças detestáveis. Cantarolava pragas e angelicais formas antagônicas infinitas. O medo amordaçava sua carne, reduzia-o a um milagre fictício, uma metáfora latente. Quem atentava-se a ele, a este miúdo caído criando decepções dantescas, entre chutes de bola e saltos na piscina. Sua quietude borbulhante nascia e morria todos os dias. Lá fora eles falam e são, em si nada era a não ser multifacetado. Cheio de faces, cheio de detalhes com a linguagem escassa infante; queria denunciar, mas o que e a quem. Como ser criança lhe fora surreal. O surreal dos murmúrios imperiosos das madrugadas deploráveis e químicas, feito faces nas frestas e sombras, janelas populadas por demônios. Nada está diferente a não ser o pulsante destino de todas as coisas a si, já adentrado em anos, com uma saudade absoluta daquilo que não fora.

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